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Vida de Santo Antãopor Santo Atanásio ![]() 8. Parte Final8.1 - Morte de Antão
Segundo seu costume, visitava os monges na Montanha Exterior. Recebendo, da Providência, um premonição de sua morte, falou aos irmãos: "Esta é a última visita que lhes faço e me admiraria se nos voltássemos a ver nesta vida. Já é tempo de morrer, pois tenho quase cento e cinco anos". Ao ouvir isto, puseram-se a chorar, abraçando e beijando o ancião. Ele porém, como se tivesse de partir de uma cidade estranha à sua própria, continuou falando alegremente. Exortava-os a "não se relaxarem em seus esforços nem a se desalentarem na prática da vida ascética, mas a viver como se tivessem de morrer cada dia e, como disse antes, a trabalhar duramente a fim de guardar a alma limpa de pensamentos impuros, e a imitar os homens santos. Não se aproximem dos cismáticos melecianos, pois já conhecem seu ensinamento ímpio e perverso. Não se metam para nada com os arianos, pois sua irreligião é clara para todos. E se vêem que os juízes os apóiam, não se deixem confundir: isto se acabará, é um fenômeno mortal, destinado a seu fim em pouco tempo. Por isso, mantenham-se limpos de tudo isto e observem a tradição dos Padres e, sobretudo, a fé ortodoxa em nosso Senhor Jesus Cristo, como aprenderam das Escrituras e eu tão freqüentemente o recordei." 90. Quando os irmãos instaram pra que ficasse com eles, até morrer, ali, recusou-se a isto por muitas razões, segundo disse, embora sem indicar nenhuma. Especialmente era por isto: os egípcios têm o costume de honrar com ritos funerários e envolver em sudários de linho os corpos dos homens santos e particularmente dos santos mártires; mas não os enterram: colocam-nos sobre divãs e os guardam em suas casas, pensando honrar o defunto deste modo [94]. Antão pediu muitas vezes inclusive aos bispos que dessem instruções ao povo sobre esse assunto. Ao mesmo tempo envergonhou os leigos e reprovou as mulheres, dizendo que "isto não era correto nem reverente, em absoluto. Os corpos dos patriarcas e dos profetas se guardam em túmulos até estes dias; e o corpo do Senhor também foi depositado num túmulo e puseram uma pedra sobre ele (Mt 27,60) até que ressuscitou ao terceiro dia". Ao expor assim as coisas, demonstrava que cometiam erro e que não dava sepultura aos corpos dos defuntos, por santos que fossem. E em verdade, quem maior ou mais santo que o corpo do Senhor? Como resultado, muitos que o ouviram começaram desde então a sepultar seus mortos [95], e deram graças ao Senhor pelo bom ensinamento recebido. 91. Sabendo disto, Antão teve medo de que fizessem o mesmo com seu próprio corpo. Por isso, despedindo-se dos monges da Montanha Exterior, apressou-se para a Montanha Interior, onde costumava viver. Depois de poucos meses, caiu doente. Chamou os que o acompanhavam - havia dois que levavam vida ascética havia quinze anos e se preocupavam com ele devido a sua idade avançada - [96], e lhes disse: "Vou-me pelo caminho de meus pais", como diz a Escritura (cf 1 Rs 2,2; Jos 23,14), pois me vejo chamado pelo Senhor. Quanto a vocês, estejam vigilantes e não façam tábula rasa da vida ascética que tanto tempo praticaram. Esforcem-se por manter seu entusiasmo como se estivessem começando agora. Já conhecem os demônios e seus desígnios; conhecem também sua fúria e também sua incapacidade. Assim, pois, não os temam; deixem antes que Cristo seja o alento de sua vida e ponham nele sua confiança. Vivam como se cada dia tivessem de morrer, fazendo atenção a si mesmos e recordando tudo o que ouviram de mim. Não tenham nenhuma comunhão com os cismáticos e absolutamente nada com os hereges arianos. Sabem como eu mesmo me guardei deles devido à sua pertinaz heresia contra Cristo. Sejam ansiosos em manifestar sua lealdade primeiro a Cristo e depois a seus santos, 'para que depois de sua morte eles os recebam nas moradas eternas' (Lc 16,9), como a amigos familiares. Gravem este pensamento, tenham-no como propósito. Se vocês realmente se preocupam comigo e me consideram como pai, não permitam que ninguém leve meu corpo para o Egito, não aconteça que me guardem em suas casas. Foi esta a razão que me trouxe para cá, à montanha. Sabem como sempre confundi os que fazem isto e os intimei a deixar tal costume. Por isso, façam-me vocês mesmos os funerais e sepultem meu corpo na terra, e respeitem de tal modo o que lhes disse, que ninguém senão vocês saiba o lugar. Na ressurreição dos mortos, o Salvador me devolverá incorruptível. Distribuam minha roupa. Ao bispo Atanásio dêem uma túnica e o manto em que estou, e que ele mesmo me deu, mas que se gastou em meu poder; ao bispo Serapião dêem a outra túnica, e vocês podem ficar com a camisa de pelo (47,2). E agora, meus filhos, Deus os abençoe. Antão parte e não está mais com vocês. 92. Depois de dizer isto e de que eles o houvessem beijado, estendeu os pés, seus rosto estava transfigurado de alegria e seus olhos brilhavam de regozijo como se visse amigos vindo a seu encontro; e assim faleceu e foi reunir-se a seus pais [97]. Eles então, seguindo as ordens que lhes havia dado, prepararam e envolveram o corpo e o sepultaram aí na terra. E até o dia de hoje ninguém, exceto esses dois, sabe onde está sepultado [98]. Quanto aos que receberam as túnicas e o manto usados pelo bem-aventurado Antão, cada um guarda seu presente como grande tesouro. Olhá-los é ver Antão e pô-los é como revestir-se de suas exortações com alegria. 93. Este foi o fim da vida de Antão no corpo, como antes tivemos o começo de sua vida ascética. E ainda que seja um pobre relato comparado com a virtude do homem, recebam-no, entretanto, e reflitam que classe de homem foi Antão; o varão de Deus. Desde sua juventude até uma idade tão avançada conservou uma devoção inalterável à vida ascética. Nunca tomou a velhice como desculpa para ceder ao desejo de abundante alimentação, nem mudou sua forma de vestir, pela debilidade de seu corpo, nem tampouco lavou seus pés com água. E no entanto sua saúde se manteve totalmente sem prejuízo - Por exemplo, mesmo seus olhos eram perfeitamente normais, de modo que sua vista era excelente; não havia perdido nem um só dente; só se haviam gasto até as gengivas pela grande idade do ancião. Manteve mãos e pés sãos, e em tudo aparecia com melhores cores e mais fortes do que os que têm uma dieta diversificada, banhos e variedade de roupas. O fato de chegar a ser famoso em todas as partes, de ter encontrado admiração universal e de que sua perda foi sentida por pessoas que nunca o viram, sublinha sua virtude e o amor que Deus lhe tinha. Antão ganhou renome, não por seus escritos nem por sabedoria de palavras nem por nenhuma outra coisa, senão só por seu serviço a Deus. E ninguém pode negar que isto é dom de Deus. Como explicar, efetivamente, que este homem, que viveu escondido em uma montanha, fosse conhecido em Espanha e Gália, em Roma e África, senão por Deus, que em toda parte faz conhecidos os seus, que, mais ainda, havia dito isto a Antão em seus começos [99]. Pois ainda que façam suas obras em segredo e desejem permanecer na obscuridade, o Senhor os mostra publicamente como lâmpadas a todos os homens (Mt 5,16), e assim, os que ouvem falar deles podem aperceber-se de que os mandamentos levam à perfeição, e então se encorajam pela senda que conduz à virtude. 8.2 - Epílogo94. Agora, pois, leiam isto aos demais irmãos, para que também eles aprendam como deve ser a vida dos monges, e se convençam de que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo glorifica aos que o glorificam. Ele não só conduz ao Reino dos Céus os que o servem até o fim, mas, ainda que se escondam e façam o possível por viver fora do mundo, faz com que em toda parte sejam conhecidos e se fale deles, por sua própria santidade e pela ajuda que dão a outros. Se a ocasião se apresenta, leiam-no também aos pagãos, para que ao menos deste modo possam aprender que nosso Senhor Jesus Cristo é Deus e Filho de Deus, e que os cristãos, que o servem fielmente e mantêm sua fé ortodoxa nele, demonstram que os demônios, considerados deuses pelos pagãos, não o são, mas antes os calcam aos pés e afugentam pelo que são: enganadores e corruptores de homens. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja dada a glória pelos séculos. Amém. 8.3 - Notas BibliográficasAs obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida". E = versão latina de Evágrio. As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida". E = versão latina de Evágrio. [94] Desde os primeiros dias da Igreja teve-se o costume de honrar os corpos dos mártires e dos homens santos. É provável que Santo Atanásio e Santo Antão impugnem não o fato de honrá-los, mas de que se guardem os corpos nas casas em vez de sepultá-los como havia sido sempre o costume cristão. Em todo o caso, que a mesma honra fosse dada aos mártires e aos homens santos demonstra mais uma vez que a vida ascética havia tomado todos os paralelos do martírio. E.E. MALONE e.c. 216,s. [95] Na medida em que o cristianismo, com sua visão espiritualizada da vida para além da morte, foi penetrando os costumes egípcios, foram diminuindo o embalsamamento e a mumificação, práticas associadas à crença na necessária participação do corpo na outra vida. [96] A tradição identificou estes monges como sendo Amatas e Macário (PALADIO em sua "História Lausíaca"), ou Isaac e Pelusiano (Vida de Santo Hilarião. H. ROSWEYDE, Pl 73, 192B). [97] E (PL 73, 167C) acrescenta: "Pela alegria de seu rosto se podia conhecer a presença dos santos anjos que haviam descido para conduzir sua alma". A aparição dos anjos na morte de um santo homem é traço típico nas "Vidas" posteriores. É igualmente frequente o resplendor ou a alegria no rosto do agonizante. E. STEIDLE, o.c. 173. [98] A tumba foi descoberta em 561, o seu corpo trasladado a Alexandria. Quando os sarracenos dominaram o Egito em 635, os restos foram levados a Constantinopla. Dali foram trasladados à França em fins do século X, e desde 1491 se guardam na igreja de São Julião de Arles (Lexikon f. Theol. u. Kirche, 3a.ed. 1957, 667. COLOMBAS, 62, não parece compartilhar esta opinião. Sobre o dado do texto, cf Deut 34,6. [99] Também estes detalhes correspondem aos da vida de Moisés; cf Deut 43,7. Cf também B. STEIDLE, o.c. 159ss. Fonte: Padres do Deserto | Mosteiro da Virgem (Petrópolis-RJ)
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