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Santo Hipólito de Roma

(? – c. 235), presbítero e mártir

Antologia

«Eis que o Senhor vem para ser baptizado»

Da Homilia atribuida a Santo Hipólito de Roma,
«O mistério do Natal»

Eis que se aproxima o Senhor para receber o baptismo; chega cansado, sem ornamentos, sem escolta, revestido da nossa humanidade, ocultando a sua divina grandeza para iludir a manha da serpente. Não chega dizer que vem ao encontro de João como um senhor que afastou a sua guarda pessoal. Vem como um simples homem, submetido ao pecado, inclinando a fronte para ser baptizado pela mão de João. Este, tocado por tão grande humildade, tenta impedi-lo dizendo: "Eu é que preciso de ser baptizado por ti e és tu quem vem ter comigo?" (Mt 3,12)

Apercebes-te, meu irmão, de como teríamos ficado privados de tão abundantes e tão grandes bens se o Senhor, cedendo ao pedido de João, tivesse renunciado ao baptismo? Porque, até então, os céus estavam fechados para nós e inacessível o mundo lá de cima... Aliás, o Mestre, não recebeu apenas o baptismo. Ele renovou o homem velho e confiou-lhe imediatamente a graça da adopção. Porque de repente os céus abriram-se. O mundo visível e o invisível rec onciliaram-se. Os exércitos celestes transbordaram de júbilo; as doenças da terra foram curadas; os mistérios secretos foram revelados, a hostilidade deu lugar à amizade... Cristo, o Esposo, tinha sido baptizado; era preciso então que se abrissem as esplêndidas portas da câmara celeste. O Espírito Santo tinha descido como uma pomba e a voz do Pai tinha ressoado: "Este é o meu Filho Bem-amado!"...

Por isso, peço-vos: vinde, de todas as tribos e nações, vinde à imortalidade do baptismo. Anuncio-vos hoje a vida, a vós que jazeis nas trevas da ignorância. Vinde à liberdade, vós que sois ainda escravos. Vindo ao Reino, vós que estais sob a tirania... Como vir? dizeis vós. Como? Pela água e pelo Espírito Santo. Essa água, misturada com o Espírito, rega o Paraiso, alegra a terra, fecunda o mundo; ela regenera e vivifica o homem, ela na qual Cristo foi baptizado e sobre a qual desceu o Espírito.

* * * * *

«Eu, porém, digo-vos»: é a antiga Lei levada à perfeição
por aquele que dá a nova Lei

Uma homilia grega do século IV,
inspirada pelo Tratado sobre a Páscoa,
de Sto. Hipólito de Roma

A Lei dada a Moisés é uma recolha de ensinamentos variados e imperativos, uma colecção útil a todos acerca do que é bom fazer nesta vida e um reflexo místico dos costumes da vida celeste: um archote e uma lâmpada, um fogo e uma luz, réplicas dos luzeiros do alto. A Lei de Moisés era o itinerário da piedade, a regra dos bons costumes, o travão do primeiro pecado, o esboço da verdade futura (Col 2,17)... A Lei de Moisés era um mestre para a piedade e um guia para a justiça, uma luz para os cegos e uma prova para os insensatos, um pedagogo para as crianças e uma amarra para os imprudentes, uma rédea para as cabeças duras e um jugo poderoso para os impacientes.

A Lei de Moisés era o mensageiro de Cristo, o percursor de Jesus, o arauto e o profeta do grande Rei, uma escola de sabedoria, uma preparação necessária e um ensinamento universal, uma doutrina oportuna e um mistério temporário. A Lei de Moisés era um resumo simbólico e enigmático da graça futura, anunciando em imagens a perfeição da verdade que havia de vir. Pelos sacrifícios, anunciava a Vítima; pelo sangue, o Sangue; pelo cordeiro, o Cordeiro; pela pomba, a Pomba; pelo altar, o Sumo Sacerdote; pelo Templo, a permanência da divindade; pelo fogo do altar, a plena "Luz do mundo" (Jo 8,12) que desce dos céus.

* * * * *

Refutação de todas as heresias

«Da nossa mesma substância»

Sabemos que o Verbo assumiu um corpo no seio da Virgem e transformou o homem velho numa nova criação. Sabemos que Se fez homem da nossa mesma substância. Se não fosse assim, em vão nos mandaria que O imitássemos como mestre. Se este homem tivesse sido formado de outra substância, como poderia impor-me a mim, débil por nascimento, as mesmas coisas que Ele fez? Como poderíamos, em tal caso, dizer que Ele é bom e justo?

Mas para que ninguém pensasse que era diferente de nós, suportou o trabalho, quis ter fome, não recusou a sede, dormiu para descansar, não rejeitou o sofrimento, submeteu-Se à morte e manifestou a sua ressurreição. Em tudo isto, ofereceu a sua humanidade como primícias, para que tu não desanimes no meio do sofrimento, mas, reconhecendo-te homem, esperes também tu receber o que a Ele foi oferecido.

 

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