![]() |
![]() |
||||||||||||||||
![]() |
|||||||||||||||||
PENITÊNCIA E CONFISSÃODo livro "Átrios del Señor", publicado pela Arquidiocese Ortodoxa Antioquena Trad.: Pe. André Mistério
Afinal, o Mistério e a Providência salvadora de Deus é Cristo (Cl 2, 3), "O mistério guardado em segredo pelos séculos eternos" (Rm 16, 25. Ver também Ef 1, 9-10; Ef 3, 5, 6, 9), é o mistério do amor infinito de Deus. Toda obra realizada no Espírito Santo para a edificação da comunidade é um mistério na concepção ortodoxa. PenitênciaA palavra grega μετάνεια (metania), que significa “penitência”, é composta por duas palavras: μετα que significa “mudança”, e νοός que indica “o olho espiritual da alma”, então penitência é a mudança de mentalidade, atitude e curso de vida. É uma mudança existencial realizada não por forças humanas, mas pelo poder divino. Esta verdadeira penitência é um retorno do ser humano ao seu estado natural. Quando o homem retorna à sua própria natureza, a comunhão com Deus se torna possível e a reconciliação efetuada. Os Padres asseguram que ela deve ser constante até a morte. Santo Isaac, o Sírio diz: «A penitência é necessária para quem busca a Salvação, seja ele pecador ou justo; porque a perfeição não conhece limites. Até a perfeição dos espiritualmente avançados diminui. É por isso que a penitência não cessa até a morte." A literatura monástica fala-nos de São Sisoé: quando estava prestes a partir deste século, o seu rosto irradiava como o sol. Os pais o cercaram e ele lhes disse: "Eis que vejo os anjos se aproximando para me levar, e peço que me deixem mais um pouco para me arrepender". Os anciãos lhe disseram: "Tu não precisas de arrependimento, pai." Ele lhes respondeu: "Na verdade, duvido que tenha começado." Então todos compreenderam a sublime estatura de santidade que ele havia alcançado. E para compreender a constância da penitência, devemos nos livrar da concepção superficial que a identifica com a mera culpa por determinada atitude prejudicial, ou com a dor ou o medo de injúrias que possamos ter causado a nós mesmos ou aos outros. Embora esses sentimentos sejam elementos necessários, eles não são em si mesmos a penitência total, nem mesmo sua dimensão mais essencial. A penitência não é necessariamente uma crise emocional, mas é a centralização de nossa vida a partir de um novo eixo: a Santíssima Trindade. São Teófano, o Recluso, diz: “Enquanto o quarto estiver imerso na escuridão, nunca perceberemos sua sujeira; mas assim que for iluminado com uma luz forte, poderemos ver até o menor grão de poeira. A mesma coisa acontece na sala de nossa vida, porque a ordem das coisas não é se arrepender e depois entender Cristo, mas sim, a luz de Cristo que penetra em nossa vida nos faz perceber nosso pecado pessoal de maneira verdadeira.» Dá testemunho desta ordem espiritual a visão do profeta Isaías: primeiro ele observa o Senhor sentado no Trono e ouve os Serafins dizerem: "Santo, Santo, Santo!". Hai de mim, um homem de lábios impuros! (Is 6, 1-5). O princípio da penitência é observar a beleza e a glória de Deus, não a minha feiúra e miséria. São Paulo diz: "A tristeza, segundo Deus, produz arrependimento irreversível para a Salvação" (2Cor 7,10). Portanto, não se trata de uma tristeza melancólica que olha para os nossos defeitos, mas para o Alto, para o amor de Deus; não para trás com remorso e culpa, mas para a frente com confiança e gratidão; não observamos o que não conseguimos realizar, mas sim o que poderemos realizar pela Graça de Cristo. A vida cristã não consiste em obedecer a certos mandamentos, porque a velha lei se tornou lei espiritual escrita nas tábuas do nosso coração. Portanto, obedecemos a Deus não por medo ou buscando recompensas, mas porque o amamos. Arrependemo-nos não porque transgredimos uma certa lei, mas porque buscamos constantemente a Deus. Pecamos não por desobedecer a qualquer mandamento, mas por empobrecer-nos no amor e viver longe de Sua Graça. O sacerdote confessor ajuda o crente a descobrir o que fez de negativo, mas também o positivo que deixou de praticar. Este primeiro passo, o mais difícil, consiste em o homem reconhecer interiormente o seu pecado. Santo Isaac, o Sírio, diz: "Aquele que reconhece seu pecado é mais importante do que aquele que ressuscita os mortos". ConfissãoA confissão é a expressão da penitência realizada de antemão na alma. O homem se arrepende nas profundezas de seu ser, e isso o estimula à confissão total. São João Evangelista diz: “Se dissermos: 'Não temos pecado', enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1:8-9). Na Igreja primitiva, a confissão era praticada diante de toda a assembléia; mais tarde, e por motivos de natureza pastoral, por ordem do Patriarca Nectario de Constantinopla, a prática comunitária da confissão foi diminuída naquela cidade e gradualmente nos demais patriarcados; e concluiu-se definitivamente que a confissão dos pecados fosse feita perante o sacerdote de forma individual, pois o sacerdote, além de ouvir a Confissão, orienta e instrui de modo que se faça da confissão uma renovação ou prolongamento do Santo Batismo. «Atrevo-me a dizer que a fonte das lágrimas que brotam depois do Batismo é ainda mais importante do que o próprio Batismo: nós, que recebemos o Batismo desde a infância, voltamos a maculá-lo; no entanto, através das lágrimas, devolvemos a sua pureza original”, diz São João Clímaco. Diz São Siluan de Athos: «Como sabes que Deus perdoou os teus pecados? Se odeias o pecado, se tens compaixão do pecador, se tse alegras com aqueles que se arrependem de suas faltas, se perdoas teus devedores, tudo isso indica que Deus te perdoou. Se amas, significa que o amor de Deus habita em ti. O penitente é aquele que sofre com todos os homens e, principalmente, com aqueles que não conhecem a Deus”. Não é suficiente confessar diante de Deus?Tiago, irmão do Senhor, diz: "Portanto, confessem os vossos pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados" (Tiago 5:16). São Doroteu de Gaza (século VII) enfatiza que quem não tem um guia em sua vida espiritual assemelha-se a uma folha no outono que, sendo privado de alimento da árvore, seca e cai do galho, e consequentemente é pisoteado e subestimado. “Quem encobre suas faltas não fará bem; aquele que os confessa e os abandona alcançará misericórdia”, diz o livro de Provérbios (Pv 28, 13). O cristão se arrepende diante de Deus e de seus irmãos, e seu arrependimento busca a reconciliação. O sacerdote, como representante da comunidade dos fiéis, é testemunha, guia e ministro do Mistério: “A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; de quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20, 23). Esta frase não deve ser entendida do ponto de vista legal ou protocolar, mas como um dom espiritual que foi concedido aos discípulos para guiar as almas à penitência. O sacerdote não é o dono do perdão, mas o servo do Mistério. Deus é quem perdoa as transgressões dos homens, e o sacerdote pede isso em Nome de Jesus Cristo: «Meu filho espiritual, que confessa a minha indignidade: eu, indigno e pecador, não posso perdoar nenhum pecado na terra, mas Deus é Aquele que te perdoa. Mas, confiando naquela voz divina que os Discípulos receberam depois da Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo dentre os mortos, e que disse: 'A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; de quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos', digo que tudo o que confessaste à minha humilde pessoa e tudo o que não revelaste por ignorância ou esquecimento, e o que quer que seja, que Deus te perdoe neste momento e no futuro» (Eucologio, Sacramento da Confissão). A confissão não deve ser vista da perspectiva de punição e justificação, mas sim como alívio e cura. O homem só é incapaz de alcançar a salvação (justificação) por seu próprio esforço – chame-o de “confissão” ou qualquer outro nome – de modo que a penitência nunca será um meio de expiação, mas sim um remédio, e a confissão uma operação cirúrgica que busca trazer o doente à saúde plena. Trata-se, então, de atitudes positivas e não negativas: não derrubar o muro que separa o pecador de Deus, mas construir uma ponte que o comunique com Ele. Por que chamamos o sacerdote de "pai", se sabemos que só Deus é o Pai (Mt 23, 9)?Em sua carta, São Paulo diz aos Coríntios: “Não vos escrevo estas coisas para vos envergonhar, mas para vos advertir como meus filhos amados. Pois tivestes dez mil pedagogos em Cristo, não tivestes muitos pais. Fui eu que, pelo Evangelho, vos gerei em Cristo Jesus. Rogo-vos, pois, que sejais meus imitadores” (1Cor 4, 14-16). São João Crisóstomo, comentando estas palavras de São Paulo, destaca que a diferença entre o pedagogo e pai é que este cuida do filho, cuida constantemente dele e dá a vida por ele. E em outra ocasião, ele mesmo diz: “É verdade que Deus é o único Pai, o único Santo, como fonte de paternidade e santidade. O pai espiritual – ou o santo – deriva sua paternidade desta fonte, tendo recebido o dom do Espírito Santo”. A Tradição eclesiástica consiste em transmitir a fé através da paternidade, para a qual o sacramento da Confissão é o mistério da renovação do nascimento espiritual. A Prática Ortodoxa da ConfissãoComo em todos os Sacramentos, também no da Confissão, o sacerdote jamais deveria usar a fórmula: "Eu te absolvo dos teus pecados", mas pedir humildemente que o Senhor aceite a confissão dos fiéis: "Ó Senhor, Deus nosso, que concedeste a Pedro e à adúltera, por suas lágrimas, a remissão dos pecados, e justificaste o publicano quando confessou os seus pecados, aceita a confissão do teu servo (N...) [...] porque só a Ti pertence o poder de perdoar os pecados [ …]» (Eucologio, Sacramento da Confissão). A confissão é dirigida a Deus: "Cristo está invisivelmente presente para ouvir a sua confissão". E Deus é quem perdoa e concede sua misericórdia em abundância. O padre confessor é um homem de oração que tem paz interior e procura orientar os fiéis nos caminhos do Senhor. Por isso, a Confissão é concebida como um contato pessoal, uma relação viva entre pai e filho, na qual não há necessidade de barreiras ou confessionários; basta ter neste encontro o ícone de nosso Senhor Jesus Cristo que confirma a sua Presença. É bom, então, sentir vergonha do estado pecaminoso e do comportamento impróprio que temos, mas é ainda mais importante ter a humildade de confessá-lo, o desejo e a esperança de corrigir o caminho: «Produzi dignos frutos de conversão» (Lc 3,8). A oração de absolvição é concedida ao que se confessa como selo de alegria da Graça de Deus que o acompanhará em sua luta espiritual, não sendo, portanto, uma arma de justificação. Assim, o costume de pedir a absolvição antes da Comunhão sem a devida confissão, é estranho à Tradição da Igreja. O sacerdote recita em uma oração do Ofício: “[…] não te preocupes com os pecados que confessaste, mas vá em paz”. A absolvição é o selo da Confissão sacramental, não um protocolo preparatório antes da Comunhão. Nem uma só vez se deve aproximar da Sagrada Comunhão com a sensação de estar "justificado"; e todas as orações e súplicas, pessoais e comunitárias, pedem “perdão e remissão de nossos pecados e ofensas”, como dizemos na Litania. Assim, a Comunhão frequente não implica “absolvição” frequente, mas penitência constante e “espírito contrito”; porém, em certos momentos de peso no coração e gravidade na consciência, precisa-se recorrer à medicina da confissão. É então que o sacerdote confessor reza a absolvição sobre a cabeça do penitente, confirmando a reconciliação com a Igreja e a reincorporação ao Corpo do Senhor. Só em caso de doença grave ou mental é concedida a absolvição sem a confissão prévia. ConclusãoA Igreja nos encoraja a praticar assiduamente a Confissão para descobrir a profunda alegria da penitência; por outro lado, deixar de freqüentar o Sacramento nos faz perder a harmonia de nosso caminho espiritual. Através da Confissão, as janelas da alma se abrem para receber com humildade e gratidão a luz de Cristo que penetra e ilumina qualquer escuridão. Fonte: Arquidiocese Ortodoxa Antioquena do México, Venezuela, América Central e Caribe |
|||||||||||||||||
|
|
|||||||||||||||||
![]() |
|||||||||||||||||