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Patriarca Porfirije (Porfírio) na 90ª Assembleia de Vuk: «Abolir a liberdade de expressão é o primeiro passo para abolir toda a liberdade do ser humano»

A 90ª Assembleia de Vuk, realizada neste ano em Tršić, evento cultural mais antigo e com maior participação de público da Sérvia, foi coroada neste ano com um discurso S. B. Patriarca Porfírio da Sérvia.

O evento foi sediado em Tršić, cidade próxima à Loznica, cidade natal do célebre linguista, filólogo, antropólogo, escritor, tradutor e acadêmico sérvio Vuk Stefanović Karadžić, cuja obra foi preservada durante nove décadas com inúmeras exposições, espetáculos teatrais, concertos, obras literárias e Noites de Cinema, lançamentos de livros e eventos similares.

Além do Patriarca Porfírio, marcaram presença no evento o Bispo de Šabač, D. Jeroteja, o Vice-Presidente do Governo da República da Sérvia e a Ministra da Cultura, Sra. Maja Gojković, a esposa do Presidente da República da Sérvia, Sra. Dejan Savić, o acadêmico Svetislav Božić e o prefeito de Loznica, Sr. Vidoje Petrović, que também fez um discurso de boas-vindas.

Após a tradicional apresentação de «Hymn to the Wolf» de Stevan Mokranjec, deu-se o hasteamento da bandeira nacional da Sérvia e o discurso de boas-vindas do prefeito de Loznica, seguido do pronunciamento do Patriarca Porfírio da Sérvia que, dentre outras coisas, disse:

Quando o primeiro Vuk foi realizado, em 1933, seus organizadores não imaginavam que sua ideia se transformaria, como foi dito em algum lugar, na manifestação cultural mais antiga e massiva do país, que, como tal, seria incluída no Registro Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial da Sérvia. É por isso que é uma honra especial para mim esta oportunidade que me foi dada de proferir estas palavras dirigindo-me a atenção e amor de todos vocês (…). Há algumas semanas, pensando num possível tema para este pronunciamento, ouvi os sinos da Catedral chamando para o Ofício noturno. Enquanto subia a escadaria que dá acesso à antiga Sé, o tema que até então procurava, apareceu-me diante de meus olhos. Logo na entrada da Catedral, em frente ao seu portal principal, estão os túmulos de dois grandes filhos do povo sérvio: Vuk Stefanović Karadžić e Dositej Obradović, cujos restos mortais foram trasladados há 126 anos, e sepultados lado a lado, neste local tão representativo, onde ainda hoje repousam. Outro significado mais profundo está no fato histórico de que Vuk e Dositej foram sepultados no portal da igreja em frente ao templo mais importante da Metrópole de Belgrado. O que isso significa? Do que frequentemente se afirma até hoje, pode-se deduzir, e costumava-se concluir, que suas vidas decorreram em relações diferentes, muitas vezes turbulentas, com a Igreja. Por que isso aconteceu, como essas relações tensas se manifestaram, quais as suas causas e consequências? (…) Então, não seria estranho se, de todos os possíveis locais de descanso na capital sérvia, eles fossem sepultados precisamente neste local? E a escolha deste lugar consagrado, não significa uma nova e diferente interpretação de alguns aspectos da obra e da vida destes dois grandes homens de nossa nação? Com esses pensamentos em mente, comecei a escrever este pronunciamento.

(…)

A língua sérvia, a língua de Vuk e Dositej, de São Savas e do Rei Milutin, de Stefan Lazarević e Đurađ Branković, Andrić e Crnjanski, fundação, berço, conteúdo e espaço, templo e lar de nossa identidade nacional, juntamente com muitas outras línguas de diferentes povos, está hoje sob o ataque das forças que procuram mudá-la e distorcê-la, cortar o fluxo da seiva vital e desfigurá-la. Não é preciso provar isso, pois que é reconhecível, mas deve ser sublinhado, porque parece que não está completamente claro para todos não tratar-se da linguagem como um fenômeno isolado e próprio. O objetivo de mudar uma língua é mudar quem a fala, quem nela pensa e escreve, canta e chora, quem foi formado por essa mesma língua e pela qual forma outros. Esta mudança violenta tem a aparência de ser filológica, mas é na verdade um fenômeno antropológico. A violência contra a linguagem que vemos e à qual nos opomos é apenas o início da violência contra o homem. Se concordarmos com a abolição da liberdade no desenvolvimento e espontaneidade no florescimento da linguagem, e permitirmos que seja substituida a desde cima, é mais correto dizer: desde baixo! impor-se mudanças nas suas regras, estaremos dando o primeiro passo para abolir a liberdade de cada pessoa ser quem ela é, e de se desenvolver na direção do que deseja seguir.

Observamos com espanto como os políticos da revolução linguística espalham a sua «nova fé», o seu novo discurso de aparente correção e falsa igualdade, tentando comprimir ou esticar a língua viva de Vuk e Dositeu nos leitos de Procusto dos seus objetivos ideológicos e políticos. O fato de estes esforços não passarem sem resistência e de se levantarem vozes em todo o nosso país em defesa da língua como um dos direitos humanos fundamentais, dá-nos esperança. O que isto significa, entre outras coisas? O direito de usar a sua própria língua; o direito de preservar a sua língua e transmiti-la à próxima geração; o direito de expressar, receber, enviar e trocar informações e ideias na sua própria língua. Estes direitos, hoje e sempre, juntamente com instituições de importância nacional, inúmeras faculdades e institutos, são e serão sempre  defendidos pela Igreja.

Para não ir me prolongar muito, encerro por aqui meu pronunciamento. Comecei afirmando que Vuk Stefanović Karadžić e Dositej Obradović repousam lado a lado em frente ao portal principal da Igreja Catedral de Belgrado. Este simples fato pode ser interpretado por mal-intencionados, quer à “esquerda” , quer à “direita” do ângulo político e cultural sérvio, como se realmente eles estivessem fora da Igreja, como se não houvesse lugar para eles na Igreja; e que, por outro lado, nem precisam da igreja. Intérpretes de diferentes abordagens veem nisso uma realidade e uma mensagem completamente distinta: como se Vuk e o hieromonge Dositej, dois sábios e bons velhinhos …, com mãos carinhosas apontassem para a Igreja como ponto de encontro essencial do povo sérvio, fonte e garantia de sua identidade e sobrevivência, e tomando inúmeras gerações de nossos compatriotas pelas mãos, todos eles, um por um, conduzissem incansavelmente a isso. Fico com esta modesta interpretação neste meu pronunciamento. (…)

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