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Discurso de Sua Santidade o Patriarca Ecumênico Bartolomeu na abertura da Conferência sobre Educação Ambiental

A Consciência Ecológica e o Papel da Educação

Universidade de Tartu, 15 de setembro de 2023.

Sua Magnificência Reitora da Universidade de Tartu,
Estimado Sr. Prefeito,
Eminências,
Estimados membros do corpo docente,
Ilustres convidados,
Amados alunos,

Estamos muito felizes por participar nesta conferência, que se dedica à educação ecológica e diz respeito ao que muitos consideram ser o problema mais grave que a humanidade foi chamada a enfrentar no curso da história.

A humanidade de hoje, apesar dos progressos sem precedentes em muitos campos da cultura, da ciência, da tecnologia e da organização da vida social, não pode orgulhar-se da sua atitude em relação ao meio ambiente. Criou o problema ecológico e, embora conheça a magnitude do desastre ambiental, não cai em si, não muda seu comportamento perante a natureza, continua acreditando que o ecossistema planetário perdura e tem o poder de se restaurar .

Como muitos de vós saberão, a Igreja Ortodoxa, nos seus cultos de adoração, reza pela protecção das pessoas contra desastres naturais, pragas, fome, terramotos e inundações. Porém, a partir de 1989, o Patriarcado Ecumênico dedicou o dia 1º de setembro, festa da Indicção e início do ano eclesiástico, à Criação. A nossa Igreja, portanto, apela ao Criador para que proteja o meio ambiente dos sofrimentos e desastres que os próprios humanos lhe causam: da poluição das águas e da atmosfera, da desflorestação e da redução das terras cultiváveis, dos incêndios destrutivos e a consquente redução dramática da biodiversidade, das alterações climáticas, da exploração imprudente dos recursos naturais, dos efeitos secundários da tecnocracia, e assim por diante.

Seguiram-se muitas ações, conferências e seminários ambientais, nove simpósios ecológicos interdisciplinares e inter-religiosos no mar, várias iniciativas da Grande Igreja de Constantinopla, que inspiraram governos e parlamentos, a comunidade científica, os movimentos ambientalistas, o mundo cristão, outras religiões e pessoas de todas as idades, de todos os estratos sociais.

O Patriarcado Ecuménico foi o primeiro a promover a mensagem ecofílica do Cristianismo e a caracterizar a destruição do ambiente natural como um “pecado”. A nossa atitude exploradora em relação à criação é uma consequência da nossa alienação de Deus, da “má compreensão” da nossa liberdade. O ataque ao meio ambiente é sempre precedido por uma convulsão espiritual e moral interna. A verdade bíblica se aplica aqui, que “uma árvore podre” produz inevitavelmente “frutos maus” (Mateus 5:17).

Proclamando que a tendência ecodestrutiva tem causas espirituais, enfatizamos ao mesmo tempo que o esforço para lidar com ela deve começar no nível espiritual. Não basta o contributo da ciência e da tecnologia, nem as decisões políticas e as mudanças no funcionamento da economia, nem na produção agrícola e industrial, tão importantes como todas estas devem ser consideradas. Precisamos de uma mudança radical na nossa mentalidade e nos nossos valores, na nossa relação com o mundo e na forma como damos sentido às nossas vidas. Obviamente, se vemos o mundo como uma criação de Deus e o homem como uma criatura à imagem de Deus e à Sua semelhança, então o nosso comportamento é completamente diferente. Então o homem não pode ver-se como dono, soberano e explorador inescrupuloso da criação.

A fé genuína em Deus abole a arrogância e a megalomania do homem, que objetiva e instrumentaliza a criação para a satisfação das suas imensuráveis buscas e necessidades. Toda a vida da Igreja, o seu culto divino, o seu ethos ascético e comunitário, a sua consideração do mundo como um dom do Alto, têm uma referência ecológica. Em si, a Igreja é uma vitória contra todas as forças que, ideologicamente e na prática, contribuem para a destruição ecológica, como a ganância, a auto-deificação do homem, bem como o egocentrismo e a indiferença para com o próximo. Na verdade, a vida da Igreja é “ecologia aplicada”.

Desde o início sublinhamos as dimensões sociais da crise ecológica e a raiz comum dos problemas ambientais e sociais. O distanciamento do homem de Deus tem como resultado a ruptura das suas relações com a natureza e com os outros seres humanos. É impensável destruir o ambiente natural e afirmar que nos preocupamos com as pessoas e vice-versa. A proteção da natureza e o respeito genuíno pelo próximo são inseparáveis. No final das contas, a ausência de interesse pelas pessoas que nos rodeiam e pelo ambiente natural é indiferença aos mandamentos de Deus. Deus é glorificado onde há solidariedade e amor e quando lutamos pela proteção da natureza.

Amados,

A infância e a adolescência são os períodos mais pedagogicamente apropriados na vida de uma pessoa para a consciência ecológica e social, para incutir na mente e no coração o respeito pela santidade da pessoa e pela integridade e beleza da criação. Consideramos que a educação é de fundamental importância para o caminho da humanidade rumo ao futuro. A educação é chamada hoje, e será chamada com maior ênfase no futuro, a desempenhar um papel decisivo na questão da “dupla solidariedade” com a criação e com os outros seres humanos, fazendo com que a nova geração compreenda a gravidade da crise e o valor da mobilização para enfrentar um problema que é mais grave do que queremos admitir. Ninguém pode contestar o fato de que a própria natureza está a se tornar uma ameaça cada vez mais grave para a vida humana, devido aos desastres contínuos que os humanos estão a lhe causar. As alterações climáticas, enquanto imensa ameaça planetária, certificam a veracidade deste argumento. É por isso que se disse com razão que hoje “uma educação sem orientação ecológica é uma paródia da educação”. Também não é por acaso que, pela importância da educação para a protecção da natureza, o trabalho educativo possa ser caracterizado como uma “missão santa”. O ensino deve cultivar a natureza espiritual do homem, imprimir valores elevados nas almas dos jovens, ao mesmo tempo que apoia o desejo dos seres humanos de contribuição social e de serviço ao bem comum. também pela importância da educação para a proteção da natureza, o trabalho educativo pode ser caracterizado como uma “missão santa”. O ensino deve cultivar a natureza espiritual do homem, imprimir valores elevados nas almas dos jovens, ao mesmo tempo que apoia o desejo dos seres humanos de contribuição social e de serviço ao bem comum. 

Esta dimensão da educação tem um alcance universal e a Igreja Ortodoxa sempre lhe deu especial importância na sua tradição educativa. Consideramos os valores da Ortodoxia altamente relevantes hoje porque vinculam o progresso à proteção da pessoa humana e à integridade da criação. Na verdade, não é possível que haja um verdadeiro desenvolvimento humano num planeta ecologicamente destruído.

Neste espírito, a Igreja, no contexto da formação cristã, destaca o conteúdo filantrópico e ecofílico da nossa fé, cria incentivos para a nova geração para o testemunho pessoal e a atividade no campo da proteção ambiental e da solidariedade com os outros seres humanos, com base na Ethos cristão. Os jovens  devem compreender que este testemunho não é apenas uma dimensão externa e adicional da vida da Igreja, mas que pertence ao seu núcleo e é uma expressão vital da identidade dos fiéis.

Com estes pensamentos e sentimentos, agradecemos ao Prefeito pelo gentil convite, expressamos as nossas felicitações aos organizadores e colaboradores deste lindo evento e a nossa alegria em conhecer todos vocês, e invocamos sobre todos vocês e seus entes queridos, a graça e a bênção do Deus de sabedoria e amor.

Obrigado pela sua atenção!

Fotos: Nikos Papachristou
Com informações de: Fos Fanariou

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