3º Domingo de São Lucas

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS
Mons. Irineo Tamanini
Arquimandrita

«Moço, eu te ordeno, levanta-te»

A ressurreição do jovem da cidade de Naím, para o Evangelista São Lucas, é um sinal da chegada dos tempos messiânicos, é uma amostra do que aconteceria após a consumação dos tempos, quando Jesus passaria pela experiência da morte, ressuscitando ao terceiro dia. Lucas é o único Evangelista a narrar este milagre. Em Jesus se verificam todos os sinais messiânicos contidos nas profecias: “Então, se abrirão os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos; então o coxo saltará como o cervo, e a língua dos mudos gritará de alegria” (Is 35,5-6). O próprio Jesus, como testemunho de sua missão messiânica, mandava dizer ao Batista: “Ide dizer a João: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam” (Lc 7,22). Era o que acontecia à sua passagem. Nem a morte lhe punha resistência!

Nas proximidades de Naím, encontrou Jesus um cortejo fúnebre onde uma pobre viúva chorava a morte do seu único filho. De um lado seguia o cortejo da morte; do outro, a caravana da vida. Jesus foi ao encontro da morte, do sofrimento, para restaurar a vida que estava perdida. Diante daquele cenário moveu-se o Senhor de compaixão dizendo à mulher que já havia perdido seu marido e agora estava a sepultar seu único filho: “Não chores’” (Lc 7,14).

Jesus era extremamente sensível ao sofrimento humano. Todo o seu ministério foi pontilhado de experiências de compaixão. Não lhe passava despercebida nenhuma situação de dor e angústia. Sua sensibilidade era ainda mais aguçada quando se tratava de pessoas cuja condição social as tornava vulneráveis, vítimas da exploração e da marginalização.

Sem esperar ser solicitado, Jesus tomou a iniciativa de devolver a esperança ao coração daquela mulher, pois teve compaixão dela. Não se limitou, porém, a simples palavras de consolação. Restituiu a vida ao filho que era levado para a sepultura. Não esperou que aquela mãe ou outro familiar lhe suplicasse por um milagre ou declarasse publicamente sua fé – como quase sempre acontecia antes de um milagre – mas, movido de compaixão, diz: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” Lc 7,15.

Só o Senhor da Vida e da morte pode falar assim, e com palavras que produzem o que exprimem. “E sentou-se o morto e começou a falar. E o Senhor o entregou à sua mãe” (Lc 7, 16).

Na época de Jesus, uma viúva ocupava uma situação social difícil. Aliás, toda mulher era vista como alguém dependente do marido ou do seu pai. Quando tornava-se viúva ficava a mercê de seu filho mais velho, pois quem herdava os bens deixados era o filho varão e nunca a esposa. Neste episódio do Evangelho, o filho era sua única herança, cuja proteção, moradia e bem estar, dele provinham.

A viúva deveria ainda vestir-se com trajes que a identificassem como tal. Por causa disso era taxada na sociedade como alguém indefesa, desprotegida, pobre e, por isso, vítima fácil de enganadores, agiotas, credores etc. A Igreja primitiva suplicava pela assistência prática às viúvas, providenciava-lhes alimentos e roupas (At 6,1). São Tiago diz que a assistência aos órfãos e às viúvas demonstra que grau de compreensão e adesão à Boa Nova de Jesus as pessoas viviam. (Tg 1,27). Ciente de toda esta situação, o Senhor deixa revelar sua dupla natureza: Ele é verdadeiramente homem, sensível ao sofrimento e às dores humanas; Ele é verdadeiramente Deus, o que perdoa os pecados e tem poder sobre a morte, operando o milagre da vida.

O milagre da ressurreição do jovem é pré-anúncio da Ressurreição do Senhor. Ao vê-lo, as pessoas que ali estavam e presenciaram a manifestação direta de Deus na história humana exclamavam: “Alegremo-nos, pois Deus visitou o seu povo”. Hoje podemos afirmar que Deus já não somente nos visita, mas habita em nós. Cada cristão é uma tenda onde o Santo dos Santos faz sua morada. Ele está em nosso meio. O respeito pelo outro, no qual também Deus habita, também se fará mais visível quando de fato crermos nesta verdade.

Nosso Deus é o Deus da Vida. A ressurreição daquele jovem foi operada por Jesus que era Deus-homem. Nós, como filhos de Deus em Jesus Cristo, podemos contribuir para que o milagre da vida se faça, na recuperação, por exemplo, da dignidade de muitos jovens de nosso tempo que, aparentemente, estão como “mortos”. Uma palavra, um encontro, um diálogo, a amizade podem significar o início de uma grande experiência de revivificação, de “ressurreição”.

  • STORNIOLO, Ivo. Como Ler o Evangelho de Lucas, São Paulo: Ed. Paulus.
    MACKENZIE, John. Dicionário Bíblico. São Paulo: Ed. Paulinas, 1983..

Suplemento Litúrgico

Para os Domingos e Grandes Festas.