Domingo de Ramos

«Bendito aquele que vem em nome do Senhor»
Mons. Irineo Tamanini​
Arquimandrita

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

Do ponto de vista litúrgico, o sábado de Lázaro se apresenta como a preparação do Domingo de Ramos; dia em que se celebra a entrada do Senhor em Jerusalém. Essas duas festas têm um tema em comum: o triunfo e a vitória. O sábado revelou o Inimigo que é a morte; o domingo anuncia a vitória, o triunfo do Reino de Deus e a aceitação pelo mundo de seu único Rei, Jesus Cristo. A entrada solene na cidade santa foi, na vida de Jesus, seu único triunfo visível; até aí, ele tinha recusado qualquer tentativa de ser glorificado e é apenas seis dias antes da Páscoa que ele não só aceitou de bom grado, como provocou mesmo o acontecimento. Cumprindo ao pé da letra o que dissera o profeta Zacarias )— “Eis o teu Rei que vem montado numa jumenta” (Zac. 9:9), ele mostra claramente que queria ser reconhecido e aclamado como o Messias, Rei e Salvador de Israel. O texto do Evangelho sublinha, com efeito, os traços messiânicos: os ramos, o canto de Hosanna, a aclamação de Jesus como Filho de Davi e Rei de Israel. A história de Israel chega ao seu fim: tal é o sentido deste acontecimento. O sentido desta história era o de anunciar e preparar o Reino de Deus, a vinda do Messias. Hoje é o dia em que isto se cumpre, pois eis que o Rei entra em sua cidade santa e nele todas as profecias e toda a espera de Israel encontram seu término: ele inaugura seu Reino.

A liturgia deste dia comemora este acontecimento; com os ramos nas mãos, nós nos identificamos com o povo de Jerusalém, com o qual saudamos o humilde Rei, recitando-lhe nossa Hosanna. Mas, qual é o sentido disto para nós, hoje?

Primeiramente, nós proclamamos que o Cristo é nosso Rei e nosso Senhor. Muito freqüentemente nós nos esquecemos que o Reino de Deus já foi inaugurado, que no dia do nosso Batismo nós fomos feitos cidadãos dele, e que nós prometemos colocar nossa fidelidade a esse Reino acima de qualquer outra. Não esqueçamos que, durante algumas horas, o Cristo foi verdadeiramente Rei sobre a terra, Rei neste mundo que é o nosso. Por algumas horas apenas e numa única cidade. Mas, da mesma maneira que em Lázaro nós reconhecemos a imagem de todo homem, podemos ver nesta cidade o centro místico do mundo e de toda a criação. Tal é o sentido bíblico de Jerusalém, a cidade, o ponto focal de toda a história da salvação e da redenção, a santa cidade do Advento de Deus. O Reino inaugurado em Jerusalém é, pois, um Reino universal, abraçando todos os homens, e a criação inteira. .. por algumas horas, e entretanto, essas horas são decisivas; é a hora de Jesus, a hora do cumprimento por Deus de todas as suas promessas e de todas as suas vontades. Essas horas são o término de toda a longa preparação revelada pela Bíblia e o cumprimento de tudo aquilo que Deus quis fazer pelos homens. E assim, este breve momento de triunfo terrestre do Cristo adquire uma significação eterna. Ele introduz a realidade do Reino de Deus no nosso tempo, em cada uma de nossas horas, fazendo deste Reino aquilo que dá ao tempo o seu sentido, sua finalidade última. A partir dessa hora, o Reino é revelado ao mundo e sua presença julga e transforma a história humana. E quando do momento mais solene da celebração litúrgica, nós recebemos um ramo das mãos do padre, nós renovamos nossa promessa a nosso Rei, e nós confessamos que o seu Reino é o único objetivo de nossa vida, a única coisa que dá um sentido a ela. Nós confessamos também que tudo, na nossa vida e no mundo, pertence ao Cristo, que nada pode ser subtraído ao único e exclusivo Mestre e que nenhum domínio de nossa existência escapa de seu império e de sua ação redentora. Enfim, nós proclamamos a universal e total responsabilidade da Igreja com relação à história da humanidade e nós afirmamos sua missão universal.

No entanto, nós sabemos, o Rei que os judeus aclamam hoje, e nós com eles, se encaminha para o Gólgota, para a cruz e para o túmulo. Nós sabemos que este breve triunfo é apenas o prólogo de seu sacrifício. Os ramos em nossas mãos significam, desde então, nosso ardor em segui-lo no caminho do sacrifício, nossa aceitação do sacrifício e nossa renúncia a nós mesmos, em que reconhecemos a única estrada real que conduz ao Reino.

E, finalmente, os ramos, essa celebração, proclamam nossa fé na vitória final do Cristo. Seu Reino ainda está oculto e o mundo o ignora. O mundo vive como se o acontecimento decisivo jamais tivesse ocorrido, como se Deus não tivesse morrido na cruz e como se, nele, o homem não tivesse ressuscitado dentre os mortos. Mas nós, cristãos, cremos, na chegada desse Reino onde Deus será tudo em todos, e onde o Cristo aparecerá como o único Rei.

As celebrações litúrgicas nos relembram acontecimentos passados; mas todo o sentido e toda a virtude da liturgia consistem precisamente em transformar a lembrança em realidade. Neste Domingo de Ramos, a realidade em questão é a nossa própria implicação neste Reino de Deus, é nossa responsabilidade a seu respeito. O Cristo não entra mais em Jerusalém; ele o fez de uma vez por todas. Ele não cuidou do “símbolo” e, certamente, não foi para que nós possamos perpetuamente “simbolizar” sua vida, que ele morreu na cruz. O que ele espera de nós, é um real acolhimento do Reino que ele nos trouxe. . . e se nós não estivermos prontos a sermos totalmente fiéis ao juramento que renovamos a cada ano, o Domingo de Ramos, se de fato não estivermos decididos a fazer do Reino a base de toda nossa vida, então nossa celebração é vã, vãos e sem significado são os ramos que levamos da igreja para nossas casas.

SCHMÉMANN, Alexandre, CLÉMENT, Olivier.
«O Mistério Pascal» – Comentários Litúrgicos.

O Domingo de Ramos

(Comentário I para o «Domingo de Ramos»)

Jerusalém, há séculos, foi um símbolo de todos os povos do mundo. A Igreja reúne hoje este sinal mais uma vez mais. E, assim como Jerusalém viveu aquele Domingo de Ramos à luz de sua esperança, suas realidades de então, agora, cada cidade, cada nação, cada povo, cada homem, neste domingo, encarna essa esperança que Cristo traz às realidades de nossas vidas.

A liturgia não é uma mera recordação: a liturgia é ἀνάάµμνησις “com-memoração” e, portanto, uma presença, um sinal de realidades. A realidade é que nesta tempo Cristo está entrando aqui, em nossas realidades: Jerusalém é um símbolo do meu ser e da minha existência; e onde quer que o Domingo de Ramos esteja sendo celebrado, como há vinte séculos, Cristo está entrando em Jerusalém na realidade da minha vida. É minha decisão deixá-lo entrar, ou não.

Portanto, a partir deste pórtico solene da Semana Santa, estamos todos convidados a viver este tempo não como uma memória do passado, mas intensamente, com a esperança, com a angústia, com os projetos, com os fracassos do nosso mundo de hoje, para que Cristo nos acolha, assim como, há vinte séculos, acolheu Jerusalém e ao mundo inteiro que havia de viver de sua Redenção.

À luz desta celebração e para que vivamos mais plenamente nossa Semana Santa, se nos apresentam essas perguntas que poderiam – mesmo “ludicamente” – estar presente na consciência de cada cristão no curso desta Semana Santa:

  • Quem é aquele que entra em Jerusalém, e que carregará a cruz, aquele que morrerá entre terríveis ignominias?
  • O que Cristo encontra quando entra em Jerusalém e o que Cristo encontra aqui agora?
  • Que compromisso a fé nesse Cristo que ainda vive resgatando nossa Pátria e o mundo inteiro implica para nós, seu povo fiel?
  • E, finalmente: deixarei Cristo entrar em minha alma? Ou, como a multidão, cantarei vitória? Irei abandoná-lo dias depois? Ou me juntarei às vaias a pedir que o matem com a mesma voz que clamei Hosana?

Muitas caracterizações e personagens ocorreram naqueles dias em que Jesus entrou vitoriosamente em Jerusalém e foi crucificado; com quem me identificaria? Qual é hoje o meu caráter?

FONTE: Boletim da Arquidiocese Ortodoxa de Buenos Aires e Exarcado da América do Sul, 2020.

«Bendito aquele que vem em nome do Senhor»

(Comentário II para o «Domingo de Ramos»)

Esta é a festa de Cristo, o Rei, que é alegremente acolhido pelas crianças em sua entrada em Jerusalém, mas também por todos nós em nossos corações. “Bendito é aquele que vem…”, que vem não tanto do passado, mas do futuro: porque no Domingo de Ramos damos boas-vindas não só ao Senhor que entrou em Jerusalém montando um jumentinho há muito tempo, mas também ao Senhor que voltará em seu poder e admirável glória, como o Rei do século futuro.

Palmas e ramos são abençoados e os levamos em nossas mãos juntamente com as velas para a sequência dos ofícios litúrgicos. O início do seguinte stichirá é repetido várias vezes durante o ofício: “Neste dia a graça do Espírito Santo nos reuniu”. É possível ver aqui a prática de Santo Eutímio, São Savas e de outros monges palestinos dos séculos V e VI. Eles que, após a festa da Epifania deixavam seus monastérios para fazer um retiro quaresmal no deserto, sozinhos ou acompanhados, e se mantinham nas semanas seguintes em silêncio e oração contínua, comendo apenas raízes silvestres. Mas, durante a tarde do sexto sábado da Quaresma, todos voltavam aos seus respectivos monastérios para a Vigília de Domingo de Ramos, a fim de celebrar a Semana Santa com a fraternidade.

Em diversas paróquias isoladas no mundo ocidental, algo parecido acontece todos os anos. Membros das paróquias que estão espalhados, vivendo longe das suas igrejas e não podendo participar assiduamente nas liturgias, começam a aparecer na igreja para a Vigília do Domingo de Ramos, e quando a Semana Santa prossegue, seu número vai constantemente aumentando.

Que neste Domingo de Ramos, como os monges da Antiga Palestina, nós, no século XX, possamos realmente dizer: “Neste dia a graça do Espírito Santo nos reuniu”.

FONTE: «A SEMANA SANTA – Uma breve explanação».
Madre Maria e Kallistos Ware (Metropolita Titular de Diokleia),
Publicação: Arquidiocese Ortodoxa Grega de Buenos Aires e América do Sul.

«O Domingo de Ramos»