10º Domingo de São Lucas

«Mulher, estás livre de tua doença» (MT 13:12)
Mons. Irineo Tamanini​
Arquimandrita

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

«A Mulher curada num Sábado»

ma mulher que frequentava o Templo, portava deficiência física sofrendo com dores terríveis, pois era encurvada, desde seu nascimento. Jesus entrando naquele dia no Templo a encontrou e, compadecido de seu sofrimento a curou. Este milagre aconteceu num dia de Sábado, dia sagrado para o povo judeu, pois é o dia feito para o descanso do povo que trabalhava muitas horas durante a semana. O Judaísmo deu uma contribuição importante ao mundo, inserindo no trabalho uma ética onde o descanso é necessário e vital. A escravidão, realidade que o povo eleito viveu dolorosamente no Egito, era uma realidade execrável e jamais se poderia pensar em reviver esta situação. Por isso as normas e leis religiosas contribuíram para que o SHABAT fosse respeitado e jamais profanado. Aos poucos tais normas transformaram-se em um peso esmagador, impedindo as pessoas de até mesmo auxiliarem as outras, caso necessitassem.

Toda tradição ou norma religiosa deve ser compreendida à luz da história para que ela não se transforme num peso. Pois corremos o risco de cair no erro condenado pelo Senhor: sobrecarregar aos outros com fardos pesados, que nós mesmos não suportaríamos, em nome de uma tradição ou costume que mais geram inconformismos e paralisia. No entanto, a tradição ou costume no âmbito da religião, quando bem compreendida, ajudam-nos a perceber melhor a realidade que celebramos. Quando nos afastamos disto, nos tornamos duros de coração e cegos ante a necessidade do irmão mais fraco ou necessitado.

O Senhor, na mensagem do Evangelho de hoje, condena justamente esta falta de sensibilidade ante as necessidades do outro, em nome de um falso respeito às normas ou regras “sócio religiosas”. Precisamente num sábado e numa sinagoga, aos olhos de todos, manifestou o poder da Lei que liberta em detrimento das normas que destroem.

Ensina-nos assim que o ser humano é precioso aos olhos de Deus dando-nos, ele mesmo, o exemplo de serviço e cuidado com os que sofrem, revelando que isto é coisa agradável aos olhos de Deus. 

A mulher, naquela condição de encurvamento físico, é também representação do povo israelita que vivia sob o peso dos fardos que lhes eram exteriormente impostos. Ao curá-la, Jesus provocou a imediata reação dos sumos sacerdotes judeus, incapazes de reconhecer o Poder Libertador de Deus que vem ao encontro do Ser humano para o qual o Sábado foi feito. 

Jesus, através de suas palavras e obras, revela-nos a face amorosa e compassiva do Pai. E, para nos conduzir a Ele, propõe-nos caminhos, metas, jamais impondo. 

O anúncio do Reino de Deus é proposta de conversão, de mudança de atitudes, mas dirigida sempre ao homem livre, supõe o acolhimento e a resposta livre de cada pessoa. Quando a religião oprime, distancia-se de sua essência, torna-se clandestina uma vez que escraviza os inocentes e oprime os fracos. 

Do encontro pessoal com o SENHOR DA VIDA, a mulher encurvada sai curada. Restaurada em sua dignidade, recobra a coragem para viver e, certamente, anunciar e testemunhar a grande Misericórdia e o Poder de Deus manifestos através de sua deficiência.

Referências Bibliográficas:

  • WACH, Joaquim. Sociologia da Religião. São Paulo: Ed. Paulinas, 1990.
  • GUTIERREZ, Gustavo. O Deus da Vida. São Paulo: Ed Loyola, 1990.