«Compreenderam que tinha dito para eles a parábola»

A Santa Igreja sabe manter o vigor da sua disciplina, temperando-a com suavidade: ora não poupando os maus, parecendo poupá-los, ora, pelo contrário, poupando-os, parecendo não os poupar. Mas demonstramo-lo melhor expondo o que acontece de ordinário.

Proponhamos então aos olhares da nossa alma dois espíritos desviados vivendo no seio da Igreja: de um lado, um poderoso, um rebelde, e do outro um homem manso, um subalterno. Quando neste homem manso, neste subalterno, caminha surdamente um pecado, o pregador está lá para admoestar, atacar, acusar este pecado e, acusando o pecador, libertá-lo do pecado e restabelecê-lo no caminho da retidão. […]

Por outro lado, apercebemo-nos de que o poderoso, o rebelde, cometeu uma falta: procuramos a melhor hora da admoestação pelo mal que ele cometeu. Porque, se o pregador não sabe esperar a hora oportuna para apontar a falta, faz crescer no outro o mal que desejava atacar.

Acontece muitas vezes, com efeito, que um homem assim não sabe escutar a mais pequena palavra de admoestação. Diante da sua falta, o dever do pregador será, pois, apresentar aos que o escutam, entre as admoestações para a salvação de todos, faltas parecidas com as do homem que está ali à sua beira e que ainda não consegue acolher uma crítica estritamente pessoal, não vá ele tornar-se ainda pior. Que a inventiva lançada contra a falta se mantenha genérica, a palavra de acusação seja introduzida na sua alma sem a ferir, porque este poderoso, este espírito desviado, não percebe que ela é dirigida particularmente a ele. Que lhe fez então pregador? Poupando-o, não o poupou, não lançou palavras de culpabilização contra a sua pessoa, e, no entanto, pela sua admoestação genérica, tocou na chaga.

São Gregório, o Grande
Livro XIII, SC 212
Fonte: Evangelho Cotidiano

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