«Deixo-vos a paz […]. Não se perturbe nem intimide o vosso coração»

Com razão refere o Verbo os leões e os leopardos, a fim de tornar mais doce, por comparação com coisas desagradáveis, o usufruto daquilo que é agradável. […] Tendo perdido a semelhança com Deus, o homem transformou-se num animal selvagem, à imitação da natureza animal, tornando-se leopardo e leão pela sua vida de pecado. […]

A vida em paz torna-se mais doce após uma guerra, e deliciosa em comparação com os relatos sombrios. A saúde é um bem mais doce para os sentidos do nosso corpo quando, saindo dos horrores da doença, a nossa natureza se restabelece. E o divino Esposo, para fazer crescer na alma que para Ele ascende a intensidade e a plenitude da alegria que lhe proporciona o bem, não Se contenta em mostrar à esposa a sua beleza, mas recorda-lhe a horrível forma dos animais selvagens, a fim de que ela se delicie ainda mais com as belezas presentes comparando-as com aquilo com o qual as trocou.
Talvez o Verbo prepare providencialmente outra graça para a sua esposa. Com efeito, Ele quer que nós, embora estejamos por natureza sujeitos à mudança, não deslizemos para o mal em consequência da nossa natureza mutável, mas, por um progresso contínuo no sentido da perfeição, sejamos ajudados por esta disposição para a mudança a ascender aos bens superiores, de maneira que o caráter mutável da nossa natureza nos impossibilite a mudança para o mal. É por isso que o Verbo, como pedagogo e guardião, para nos afastar do mal, nos recorda os animais selvagens que nos dominaram no passado, a fim de que, afastando-nos do mal, realizemos a nossa estabilidade e a nossa imobilidade no bem e, mudando continuamente para bem, não mudemos para mal.

São Gregório de Nissa (c. 335-395)
«A cova dos leões»
Fonte: Evangelho Cotidiano

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