«Na ira, lembra-te da misericórdia»

(Hab 3,2 LXX)

Sejam quais forem as injúrias que descarreguem sobre o monge, ele mantém a paz; e não apenas nos lábios, mas no fundo do coração. Se se sentir minimamente perturbado, contém-se em absoluto silêncio e segue exatamente o que diz o salmista: «Fiquei perturbado sem nada dizer» (Sl 76,5 LXX). «Disse a mim próprio: vigiarei a minha conduta, para não pecar com a língua; refrearei a minha boca enquanto o ímpio estiver diante de mim. Fiquei calado e em silêncio» (Sl 38,2-3).

Ele não deve deter-se considerar o presente; não deve deixar que os seus lábios profiram o que a ira lhe sugere naquele momento, o que lhe dita o coração exasperado. Deve antes ponderar no seu espírito a graça da caridade passada; ou voltar o olhar para o futuro, para ver, em espírito, a paz já restabelecida; dedicar-se a contemplá-la quando se encoleriza, ciente de que ela voltará.

Enquanto se reserva para a suavidade da concórdia próxima, não sentirá a amargura da querela presente, e dará uma resposta tal que nem tenha de se acusar a si mesmo nem de ser censurado pelo irmão quando a amizade for restabelecida. Desta forma, cumprirá a palavra do profeta: «Na ira, lembra-te da misericórdia» (Hab 3,2 LXX).


São João Cassiano (c. 360-435)
«Sobre a amizade», cap. XXVI; SC 54
Fonte: Evangelho Cotidiano

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