«Se quiseres, podes curar-me»

Não percas a confiança em Deus nem desesperes da sua misericórdia; não duvides nem desesperes de vir a ser melhor; mesmo que o demónio tenha conseguido precipitar-te dos altos cumes da virtude até aos abismos do mal, muito mais Deus poderá chamar-te de novo para o cume do bem, e não só reconduzir-te ao estado em que te encontravas antes dessa queda, mas tornar-te muito mais feliz do que julgavas ser. Não percas a coragem, suplico-te, não feches os olhos à esperança do bem, não vá acontecer-te o que acontece aos que não amam a Deus; porque não é o grande número de pecados que leva a alma ao desespero, mas o desdém por Deus. «É próprio dos ímpios, diz o Sábio, desesperar da salvação e desdenhar dela quando caíram no fundo do abismo do pecado» (Pr 18,3, Vulg).

Assim pois, todos os pensamentos que nos roubam a esperança da conversão provêm da impiedade e, qual pedra de moinho que nos amarram ao pescoço, forçam-nos a olhar para baixo, para a terra, não permitindo que levantemos os olhos para o Senhor. Mas aquele que tem um coração corajoso e um espírito esclarecido sabe soltar do pescoço esse peso detestável. «Como os olhos do servo se fixam nas mãos do seu senhor e os da serva nas mãos da sua senhora, assim os nossos olhos estão postos no Senhor nosso Deus, até que tenha piedade de nós» (Sl 123,2-3)

Rábano Mauro (c. 784-856)
Três livros para Bonose, livro 3,4; PL 112, 1306
Fonte: Evangelho Cotidiano

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