«Ó clemência inefável de Deus!»


«Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». Ó clemência inefável de Deus! Para além de nos dar um modelo de oração, para além de instituir a regra de vida pela qual podemos tornar-nos agradáveis a seus olhos, através da fórmula que nos ensina e nos recomenda que utilizemos constantemente na oração, arranca como que por necessidade as raízes da ira e da tristeza. Mas não é tudo. Também nos permite, na própria oração, pedir-Lhe que faça um juízo indulgente e misericordioso sobre nós, dando-nos a possibilidade de suavizar a nossa sentença, levando-O ao perdão pelo exemplo da nossa própria indulgência, quando Lhe dizemos: «Perdoai-nos como nós perdoamos».

Apoiada nesta oração, a pessoa pede perdão das suas faltas com confiança. […] Se queremos ser julgados com clemência, sejamos clementes para com aqueles que nos trataram mal, pois seremos perdoados na medida em que — por grande que tenha sido a sua maldade — perdoarmos àqueles que nos tiverem feito mal. Muitos há que tremem ao pensar nisto e que, quando a Igreja, o povo, recita o Pai-Nosso a uma só voz, omitem estas palavras, com receio de se condenarem pela sua própria boca, em vez de se desculparem. Vãs sutilezas, com as quais tentam, em vão, proteger-se aos olhos do Juiz Soberano, que quis mostrar antecipadamente aos que Lho pedem a maneira como os julgará. É por não querer mostrar-Se severo e inexorável conosco que Ele nos assinala a regra dos seus juízos, a fim de que julguemos os nossos irmãos — se nos tiverem feito algum mal — como desejamos ser julgados por Ele.


São João Cassiano (c. 360-435)
«Sobre a oração, XXII; SC 54»
Fonte: Evangelho Cotidiano

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