«Jesus retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar»

Parece-me impossível distinguir todos os tipos de oração, a não ser que se tenha uma pureza de coração verdadeiramente singular e luzes extraordinárias do Espírito Santo, pois o seu número é tão grande que pode haver na mesma alma, e em todas as almas, estados e disposições muito diferentes. […]

A oração modifica-se a cada instante, segundo o grau de pureza a que a alma chegou, mas também conforme a sua disposição atual, que pode ser espontânea ou devida a influências exteriores; e é certo que não permanece sempre idêntica a si mesma em cada pessoa. Rezamos de forma diferente conforme temos o coração leve ou pesado de tristeza e desesperança; na embriaguez da vida sobrenatural ou na depressão de tentações violentas; quando imploramos o perdão dos nossos pecados ou quando pedimos uma graça, uma virtude, a cura de um vício; na compunção que o pensamento do inferno e o temor do juízo nos inspiram ou quando ardemos no desejo e na esperança dos bens futuros; no meio de perigos e adversidades ou em paz e segurança; quando nos sentimos inundados de luz pela revelação dos mistérios do Céu ou quando estamos paralisados pela esterilidade da virtude e a secura do pensamento. […]

Estes vários modos de oração serão seguidos por um estado ainda mais sublime e de elevação ainda mais transcendente: é um olhar só para Deus, um grande fogo de amor, onde a alma se funda e se afunda na santa dileção, entretendo-se com Deus como com um Pai, com enorme familiaridade, numa ternura de piedade toda especial.


São João Cassiano (c. 360-435),
«Sobre a oração», VIII. XVIII; SC 54,
Fonte: Evangelho Cotidiano

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