«Cala-te e sai desse homem»

«Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro». Esse espírito não podia suportar a presença do Senhor; tratava-se do espírito impuro que tinha conduzido os homens à idolatria. […] «Que acordo pode existir entre Cristo e Satanás?» (2Cor 6,15); Cristo e Satanás não podem estar associados um ao outro. «Começou a gritar: «Que tens Tu a ver conosco?» Aquele que assim grita é um indivíduo que se exprime em nome de várias pessoas; isto prova que tem consciência de ter sido vencido, ele e os seus.

«Começou a gritar: ‘Que tens Tu a ver conosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus’». Em pleno tormento, e apesar da intensidade do sofrimento que o faz gritar, não abandona a hipocrisia: é forçado a dizer a verdade, o sofrimento a isso o obriga, mas a malícia impede-o de dizer toda a verdade: «Que tens Tu a ver conosco, Jesus Nazareno?». Porque não reconheces o Filho de Deus? Será de fato o Nazareno quem te tortura, e não o Filho de Deus? […]
Moisés era um santo de Deus. E Isaías e Jeremias também o foram.

[…] Porque não lhes dizes: «Sei quem tu és: o santo de Deus»? […] Não digas, pois: «Santo de Deus», mas «Deus Santo». Pensas que sabes, mas não sabes; ou, se sabes, calas-te por duplicidade. Porque Ele não é apenas o Santo de Deus, mas o Deus Santo. […]

«Vieste para nos perder?»

«Jesus repreendeu-o, dizendo: “Cala-te e sai desse homem”».  A verdade não tem necessidade nenhuma do mentiroso. «Não vim para que o teu testemunho Me confirmasse, mas para te expulsar daquele que criei […]; não tenho necessidade do reconhecimento daquele que bani. Cala-te! Que o teu silêncio seja o Meu louvor. Não quero ser louvado pela tua voz, mas pelos teus tormentos; o teu castigo é o Meu louvor […] “Cala-te e sai do homem!”» É como se dissesse: «Sai da Minha casa; que fazes tu na Minha habitação? Eu quero entrar: Por isso, cala-te e sai do homem, deste ser dotado de razão. Sai do homem! Deixa essa morada que Eu preparei para Mim! O Senhor quer a Sua casa, sai deste homem» […]

Vede a que ponto a alma do homem é preciosa. O que contraria os que pensam que os homens e os animais têm uma alma idêntica e que somos animados pelo mesmo espírito. Noutra altura, o demónio foi expulso de um só homem e foi enviado para dois mil porcos (cf Mt 8,32): aquilo que era precioso foi salvo, e o que era vil, perdido: «Sai do homem, vai para os porcos. […] Vai para onde quiseres, vai para os abismos. Deixa o homem que é Minha propriedade. […] Não te vou deixar possuir o homem pois seria para Mim um ultraje instalares-te nele em Meu lugar. Assumi um corpo humano, vivo no homem: essa carne que possuis faz parte da Minha carne: sai deste homem!»

São Jerônimo (347-420),
Homilias sobre o Evangelho de Marcos, nº 2
Fonte: Evangelho Cotidiano

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