«Cria em mim, ó Deus, um coração puro» (Sl 50,12)

«Felizes os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5,8). Com facilidade acreditamos que um coração purificado nos fará conhecer a alegria suprema. Mas, tal purificação de coração parece tão ilusória como a subida aos céus. Que escada de Jacob (Gn 28,12), que carro de fogo semelhante ao que transportou o profeta Elias para o céu (2Rs 2,11) encontraremos nós que nos leve o coração até à beleza celeste e que no-lo liberte de todo o seu peso terreno? […]

Não é sem dificuldade que alcançamos a virtude: quanto suor, quantas provações! Quanto esforço e sofrimento! As Escrituras lembram-nos muitas vezes: «como é estreita a porta e quão apertado é o caminho» que leva ao Reino, ao passo que «larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição», pelo pecado (Mt 7,13-14). E, no entanto, as mesmas Escrituras asseguram-nos de que podemos alcançar essa existência superior. […] Como nos tornarmos puros? O Sermão da montanha no-lo ensina em quase todos os passos. Lede os mandamentos nele expressos uns após outros, e descobrireis a verdadeira arte da purificação do coração. […]

Ao mesmo tempo que Cristo nos promete a bem-aventurança, instrui-nos e forma-nos para o bom êxito desta promessa. Não é certamente sem dificuldades que se atinge a bem-aventurança. Mas compara bem tais dificuldades com a existência de que elas te afastam, e verás quão mais penoso é o pecado, se não no imediato, pelo menos na vida futura. […] Infelizes aqueles cujo espírito se mantém, com obstinação, na impureza! Apenas verão a face do Adversário. Contrariamente, a existência de um justo ficará marcada pela efígie de Deus. […]. Sabemos que traços revestem, por um lado, uma vida de pecado e, por outro, uma vida de justiça. Face à alternativa, temos a liberdade de escolher. Fujamos, portanto do rosto do demônio, arranquemos a sua máscara odiosa e, revestidos da imagem divina, purifiquemos o coração. Possuiremos assim a alegria e a imagem divina brilhará em nós, graças à nossa pureza em Cristo Jesus, Nosso Senhor.

São Gregório de Nissa (c. 335-395),
Homilias sobre as Bem-aventuranças, n°6
Fonte: Evangelho Cotidiano

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