«Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5, 8)

A saúde do corpo é um bem para a vida humana. Ora, somos felizes se, para além de conhecermos a definição da saúde, vivermos saudáveis. […] O Senhor Jesus não nos diz que seremos felizes por conhecermos certas matérias relativas a Deus, mas que o seremos se O possuirmos em nós próprios. Com efeito, «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5, 8). Ele não diz que Deus Se deixa ver por todos quantos tiverem purificado o olhar da alma […]. Há outra frase que exprime o mesmo pensamento com maior clareza: «O Reino de Deus está dentro de vós» (Lc 17, 21); esta passagem ensina-nos que aquele que purificou o seu coração de todas as criaturas e de todas as ligações desordenadas vê a imagem da natureza divina na sua própria beleza. […]

Há em ti, em certa medida, uma aptidão para ver a Deus. Aquele que te formou depositou no teu ser uma força imensa. Ao criar-te, Deus encerrou em ti a sombra da Sua própria bondade, como se imprime o desenho de um selo na cera. Mas o pecado dissimulou esta marca de Deus, que ficou oculta pela sujidade do mesmo pecado. Se, fazendo um esforço de vida perfeita, purificares a sujidade que tens no coração, a beleza divina voltará a brilhar em ti. Assim como um pedaço de ferro de que foi limpa a ferrugem brilha ao sol, assim também o homem interior, aquilo a que o Senhor chama o «coração», reencontrará a semelhança com o seu modelo quando tiver limpado as manchas de ferrugem que lhe deterioram a beleza.

São Gregório de Nissa (c. 335-395), monge e bispo
Homilia 6 sobre as Bem-aventuranças; PG 44,1269
(a partir da trad. cf bréviaire)


«Verão a Deus» (Mt 5,8)

A impressão que se tem quando se olha a imensidão do mar é a mesma que o meu espírito sente quando, do alto das palavras escarpadas do Senhor, como do cimo de uma falésia, contemplo o seu abismo infinito. […] A minha alma sente vertigens diante destas palavras do Senhor: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5,8). Deus oferece-Se ao olhar daqueles que têm o coração puro. Ora, «ninguém jamais viu a Deus» (Jo 1,18), diz São João. E São Paulo confirma esta ideia, ao falar daquele «a quem nenhum homem viu, nem pode ver» (1Tim 6,16). Deus é o rochedo abrupto e afilado, que não oferece o menor amparo à imaginação. Também Moisés Lhe chamava inacessível […], pondo na boca de Deus as seguintes palavras: «O homem não pode contemplar-Me e continuar a viver» (Ex 33,20). Quer dizer que a vida eterna é a visão de Deus, e que estes pilares da fé nos afirmam que tal é impossível? […]

Mas o Senhor estimula a nossa esperança, e deu-nos uma prova na pessoa de Pedro, tornando firmes as águas sob os pés deste discípulo que estava prestes a afogar-se(Mt 14,30). A mão do Verbo estender-se-á igualmente para nós, que estamos submersos nestes abismos, para nos devolver as forças. Ficaremos então mais seguros, porque seremos firmemente dirigidos pela mão do Verbo.

«Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus»: semelhante promessa ultrapassa as nossas maiores alegrias; após tal felicidade, que mais podemos desejar? […] Aquele que vê a Deus possui, por via dessa visão, todos os bens imagináveis: uma vida sem fim, uma incorruptibilidade perpétua, uma alegria inesgotável, um poder invencível, delícias eternas, a luz verdadeira, as doces palavras do Espírito, uma glória incomparável, uma satisfação ininterrupta, enfim, todos os bens. Que tal beatitude seja para nós uma fonte de esperança!

São Gregório de Nissa (c. 335-395)
Homilias sobre as Bem-Aventuranças, 6, 1

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