Atenas Museu da Acrópole, 5 de junho, 2018

Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico

Saúdo-vos com grande alegria neste Simpósio Ecológico Internacional, interdisciplinar e inter-religioso, com o subtítulo Preservando o Planeta e Protegendo as Pessoas. Encontram-se aqui pessoas de todas as partes do mundo para enfrentar um grande desafio de interesse mútuo e urgente. A sua presença aqui é uma honra e uma esperança para o futuro.

A crise ecológica revelou que o nosso mundo constitui um conjunto harmonioso, que os nossos problemas são universalmente compartilhados. Isso significa que nenhuma iniciativa ou instituição, nenhuma nação ou empresa, nem a ciência nem a tecnologia estão em condições de responder sozinhas à crise ecológica, sem trabalhar em conjunto. Nossa resposta exige a convergência e o impulso comum das religiões, da ciência e da tecnologia, de todos os setores e organizações sociais, bem como de todas as pessoas de boa vontade. É necessário um modelo de cooperação e não um método de competição; devemos trabalhar de forma colaborativa e complementar. Infelizmente, no entanto, hoje assistimos a interesses econômicos e modelos geopolíticos trabalhando contra essa cooperação no campo da proteção ambiental.

Precisamos nos lembrar que a mudança climática é uma questão que está intimamente relacionada ao nosso modelo atual de desenvolvimento econômico. Uma economia que ignora os seres humanos e as necessidades humanas conduz inevitavelmente a uma exploração do ambiente natural. No entanto, continuamos a ameaçar a existência da humanidade e a esgotar os recursos da natureza em nome do lucro e benefício a curto prazo. Como podemos imaginar um desenvolvimento sustentável às custas do ambiente natural?

Como se sabe, o Patriarcado Ecumênico há muito tempo tem ressaltado as raízes espirituais e morais da crise ecológica, enfatizando a solidariedade entre a humanidade e a natureza. Ademais, sublinhou a necessidade de uma transformação espiritual dos seres humanos e de sua atitude em relação à criação. Os problemas ecológicos apontam para uma visão problemática dos seres humanos, das necessidades e prioridades que moldam nossas atitudes e práticas em relação ao mundo. A destruição do ambiente natural só pode ser revertida através de uma mudança radical de nossa perspectiva em relação à natureza, que resulta de uma mudança radical de nossa autocompreensão como seres humanos. Quão irônico saber que nunca antes possuímos tanto conhecimento sobre o nosso mundo como hoje, e nunca antes fomos mais destrutivos uns para com os outros e com a natureza.

Para a Igreja Ortodoxa, o cuidado da criação – a preservação da natureza e a proteção de todas as pessoas – emana da essência de nossa fé. Qualquer tipo de alienação entre seres humanos e a natureza resulta de uma distorção da teologia e antropologia cristãs. Conforme declarado pela encíclica do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa, em junho de 2016, cada cristão é chamado a ser um “administrador, protetor e sacerdote da criação, oferecendo-a por meio de doxologia ao Criador”.

É precisamente por isso que a nossa Igreja empreendeu várias iniciativas internacionais, inter-religiosas e interdisciplinares sobre o meio ambiente, durante toda a duração de nosso ministério patriarcal. Organizamos simpósios, seminários e reuniões de cúpulas; dirigimo-nos às comunidades religiosas e assembleias políticas; envolvemo-nos pessoalmente no processo que conduziu ao histórico Acordo de Paris, adotado em dezembro de 2015.

Neste sentido é que emitimos uma mensagem conjunta com o Papa Francisco, em setembro passado, pedindo que se priorize o “serviço” em nossas relações com a natureza e com os nossos semelhantes. E, finalmente, e por isso é que organizamos o presente simpósio, para explorar os problemas ambientais nesta região, examinando as conexões de justiça ecológica e justiça social, no contexto dos urgentes desafios ambientais e sociais do nosso tempo, tanto na Grécia quanto globalmente

Portanto, durante as nossas sessões nos próximos dias, iremos nos concentrar na relação crítica entre religião e ciência, examinando especialmente como impacta o meio ambiente natural. Vamos avaliar a conexão fundamental entre ecologia e ética, sobretudo no que se refere às atitudes sociais. Iremos abordar a íntima relação entre guerra e imigração, em especial, o que gera a migração forçada. E em todo tempo, estaremos pontuando o papel vital e transformador da fé na vida de indivíduos, comunidades e povos.

Naturalmente, sempre existe uma dimensão muito tangível e local no cuidado com a criação. E este é o principal objetivo por trás do título do simpósio: Toward a Greener Attica (Rumo a uma Ática mais verde). Pois, enquanto muito é feito para aumentar a conscientização sobre a mudança climática neste belo país, há ainda muito a se fazer. Por exemplo, quando veremos a redução do lixo na encosta da Ática com seus deploráveis ​​aterros? Ou, quando veremos uma solução para o plástico que vai parar no fundo do mar circundante, e que ameaça a vida marinha?

Assim como quase metade da população da Grécia, mais da metade de seu lixo marinho concentra-se na região ao redor do Golfo Sarônico! E não é só o Golfo Sarônico. O Mar Jónico também está em situação de risco, ameaçando as populações de Lefkada e do continente com o aumento dos resíduos não biodegradáveis de navios.

É nosso dever proteger nossas águas e os nossos mares. O ambiente marinho da Grécia é uma parte vital de sua história e de seu povo, de sua economia e sua ecologia. Não seria um alívio ver a área do Mar Jónico honrando sua designação como uma das maiores áreas do país “Natura 2000”, protegida pela União Europeia? Não seria inspirador ver Atenas se juntando a outras cidades como Paris e Berlim para promover o direito humano à água, e a defendê-la como um bem comum? Mais recentemente, Thessaloníki se tornou a primeira Comunidade azul na Grécia. Estes são os esforços conjuntos pelos quais somos chamados a lutar se realmente quisermos proteger nossa água para as futuras gerações.

Desde o início, sublinhamos a interconexão que existe entre os problemas ambientais e sociais, bem como a necessidade de abordá-los e resolvê-los em conjunto. Preservar e proteger o meio ambiente natural, assim como respeitar e servir nossos semelhantes, são dois lados da mesma moeda. As consequências da crise ecológica – que afeta principalmente, e em primeiro lugar, os vulneráveis ​​social e economicamente – são uma séria ameaça à coesão e integração social. A identidade de cada sociedade e a medida de todas as culturas não são julgadas pelo grau de desenvolvimento tecnológico, crescimento econômico ou infraestrutura pública. Nossa vida civil e civilização são definidas e julgadas primariamente pelo nosso respeito pela dignidade da humanidade e integridade da natureza.

Além disso, há um vínculo muito estreito entre cuidar da criação e adorar o criador, entre uma economia para os pobres e uma ecologia para o planeta. Quando ferimos pessoas, prejudicamos a terra. Portanto, nossa ganância extrema e desperdício excessivo não são apenas economicamente inaceitáveis; são também, e ao mesmo tempo, ecologicamente insustentáveis. Na verdade, são eticamente imperdoáveis. Esta é a forma como devemos interpretar as palavras do Senhor na Parábola do Juízo Final: “Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber.”  (Mt 25,35)

Queridos amigos, todos nós somos chamados e desafiados a mudar a maneira como consumimos a fim preservarmos o nosso planeta e em benefício de todas as pessoas. Quando nos servimos, reconhecemos que devemos servir uns aos outros. “Servir” implica compartilhar nossa preocupação com a terra e seus habitantes.  Significa a capacidade de ver em nosso próximo – e em todas as outras pessoas – o rosto de todo ser humano e, por fim, o rosto de Deus. Esta é certamente a justificativa mais profunda de tudo que fazemos – cada um de nós a partir de nossa própria profissão, vocação e crença. Do contrário, não podemos dizer que demonstramos compaixão para com o nosso planeta e nosso próximo, ou que realmente nos importamos com os recursos e comunidades do mundo

Que este simpósio seja uma oportunidade de inspiração, conversação e transformação. Nosso objetivo é promover uma resposta colaborativa à crise ecológica enquanto defendemos um planeta sustentável e justiça social para a humanidade como um legado sagrado para todas as pessoas, especialmente para as nossas crianças. Não temos dúvidas de que nossas apresentações e deliberações nos ajudarão a avançar um pouco mais e a subir um pouco mais (como diria o prêmio Nobel grego George Seferis) por meio das contribuições inestimáveis ​​daqueles que devotaram suas vidas, seu trabalho e suas habilidades a defender e promover a integridade da criação e um mundo justo. Contudo, tenhamos sempre em mente – para além de qualquer sucesso ou fracasso – que nossa esperança última, como cristãos, reside na descida humilde do nosso Salvador, do «mais alto», a fim de «fazer novas todas as coisas» (Ap 21,5) e nos ajudar a ascender ao reino de Deus que «não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo.» (Rm 14,17).

Bartolomeu de Constantinopla


Tradução: Pe. André Sperandio
Fonte: Newsletter do Patriarcado Ecumênico
Setembro/2018

 
 

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