Prof. Dr. Dr. Iosif Bosch
Bispo de Pátara
Patriarcado Ecumênico de Constantinopla

Creio ser necessário escrever esta nota de cunho estritamente pessoal, após a leitura do artigo do site «Valores Religiosos» intitulado «O Patriarca russo acusa de ‘cismática’ a mais alta autoridade ecumênica» (Valores Religiosos) a fim de ampliar, a partir de outra perspectiva, o ponto de vista dos leitores de língua espanhola sobre a situação atual vivida na Igreja Ortodoxa.

Nos últimos meses, em razão das decisões do Santo Sínodo do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla – e das contra-decisões do Santo Sínodo do Patriarcado de Moscou[1] – sobre a eventual autocefalia que o primeiro concederia à Igreja da Ucrânia, produziu uma sensível escalada de tensão na retórica usada para defender as posições de ambas as instituições.

Como é sabido, o Patriarcado Ecumênico, no âmbito da Igreja Ortodoxa, é uma instituição com uma primazia de honra particular e única mantida durante os séculos até os nossos dias; não, porém, sem ter testemunhado – e, muitas vezes, ter sido vítima – de reações heterogêneas, tanto por causa de seu status em si, como também em razão das prerrogativas que lhes são tradicionalmente atribuídas em virtude disso. É necessário esclarecer aos leitores que a noção de «primazia» ou «primado» não é estranha à eclesiologia ortodoxa, embora, é claro, tenha uma interpretação muito distante daquela latina, sem negar – hoje mais que nunca – uma multifacetada paleta hermenêutica a partir dos diferentes grupos (escolas) teológicos da Ortodoxia.

O adágio (sempre controvertido, e diria, citado quase à fadiga por especialistas e outros nem tanto, a ponto de se tornar um cliché teológico) «primus inter-pares», que se refere à primazia do trono ecumênico, quer assinalar, por um lado, a identidade-paridade eclesiológicas de cada jurisdição independente aplicada aos seus assuntos internos, mas, por outro, a distinção entre as mesmas no que diz respeito às tarefas que transcendem (o intestino) as seu âmbito interno e particular, e se instalam em uma dimensão mais ampla e comum, própria de cada Igreja, e que diz respeito a todos os organismos autônomos como partes de um só e mesmo corpo. O termo – a realidade – em si é paradoxal, uma vez que se centra e se sustenta a partir da profundidade eclesiológica-dogmática de uma Tradição que vê a Igreja como, por um lado, essencial e operacionalmente um órgão colegiado-sinodal; por outro, porém, a considera necessariamente hierárquica. Nesta chave de leitura, sinodalidade e hierarquia não se auto excluem, mas se complementam numa síntese ontológica-operativa baseada – natural e coerentemente – na própria natureza e consequente ação da Igreja como criação de Deus a partir do nada.

É por isso que o conceito de primazia não se contrapõe ao de paridade. A primazia, porém, é operativa, não apenas essencial. A problemática dos especialistas em direito canônico – e dos administradores – está centrada, sobretudo, no «como» da operação, ou seja, nas prerrogativas análogas (ou não) que lhe correspondem (ou não) ao «primus inter pares». O debate é longo e sinuoso; não me estendo mais por enquanto.

A questão ucraniana é certamente complexa. Eu não me atreveria, no presente artigo, descrevê-la em detalhes, se é que isso possa ser feito com precisão. Talvez, esta análise corresponda mais propriamente a um especialista em direito canônico. Não é meu caso; minha experiência teológica versa sobre o dogma. Não obstante, e por essa razão, ouso exprimir uma exígua opinião à distância – quase mítica para alguns – do que, para nós, os ortodoxos, é a própria vida, isto é, a fé vivida aqui e agora no âmbito eclesial.

O santo sínodo do Patriarcado Ecumênico decidiu inaugurar um processo que, eventualmente, decantaria na concessão da autocefalia à Igreja ucraniana. O processo está em andamento; ainda não terminou. A situação da igreja ucraniana no nível jurisdicional é bastante difícil, por isso a sua resolução não pode ser nem simples nem anódina. Será problemática, e até virulenta. Isto é o que predizem os «analistas» e os «cronistas eclesiásticos», do Oriente ao Ocidente: nada de novo sob o sol eclesiástico que brilha sobre nós há mais de dois mil anos! É o itinerário da Igreja como a criação do nada, – ἐκ τοῦ µ ὄντος: dramático; e até, às vezes, trágico. Oximoro para alguns; escândalo para muitos; paradoxo para poucos.

De sua parte, a retórica moscovita – como o artigo em questão anuncia – prevê quase irreversivelmente um «cisma» que muitos já o proclamam, outros presumem e alguns – desgraçadamente – anseiam.

Argumentos, da «rainha das cidades»[2] polemizam com os da capital russa sobrevoando a lendária Kiev, mãe de todas as igrejas russas, que nos dias atuais mais parece uma «panela de pressão» que a qualquer momento poderia libertar todo o «vapor» acumulado.

Neste contexto, insinuar que o Patriarca Ecumênico é «cismático» ou que já «não é mais o líder da Ortodoxia» porque começou este processo e isentou aos até agora hierarcas ucranianos cismáticos de sua situação de não canonicidade em virtude da operação – aqui e agora – de sua prerrogativa natural para aceitar apelações dos bispos de outras jurisdições (Canon 9 do IV Concílio Ecumênico, ΠΗΔΑΛΙΟΝ, Ἐκδόσεις Παπαδηµητρίου, ἀπό τὸ 1896, pág. 191) deve ser interpretado, – com «apaziguadora indulgência» – como próprio de uma retórica polêmica que, não obstante, aventura-se ao limite da verossimilitude. A discrepância é sempre aceitável, mas dentro dos limites evangélicos. Para além disso, as regras do jogo podem inverter-se perigosamente até alcançar algum tipo de «des-graça», desatino que, sem dúvida, anula até o eventual direito ou razão de cada uma das partes, uma vez que se contrapõe ao próprio Evangelho.

Ao ponto, portanto: o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, o legítimo «primus inter pares», o primaz da Ortodoxia, NÃO É CISMÁTICO, nem deixou de ser quem é – quem foi e será – apenas porque o Sínodo do Patriarcado Ecumênico tomou tal ou qual decisão que, certamente, se opõe à ótica de outra Igreja Local, no caso, a Igreja Russa. Isso é mais do que claro. A transição utilizada, ainda que com certa celeridade, nessa situação transcende a «canonicidade do (bom) sentido eclesiástico».

Nesta linha, é importante notar que a Igreja Russa escolheu interromper a comunhão eclesiástica com a aquela que foi no passado a sua Igreja Mãe. Parece que não havia outra opção, – clamaram de antemão os plenipotenciários embaixadores do Primaz russo. Depois deste fato, é claro, a retórica – ou o relato – fica em segundo plano. Sem dúvidas. A narrativa moscovita ainda prediz um cisma de dimensões iguais ao que ocorreu em 1054. O que mais temos que esperar? O «primus inter pares» cismático – por enquanto, quem sabe, depois?[3]; um cisma devastador e uma Igreja que se vai fragmentando de acordo com a retumbante celeridade de uma realidade que muitos primazes gostariam de evitar; Que mais? O panorama parece irreversível. Claro, aos olhos dos homens. De alguns homens.

E, enquanto isso?

Enquanto isso, as Igrejas do Patriarcado Ecumênico estão abertas a todos:   todos os russos; aos russos do exterior; aos ucranianos pertencentes ao Patriarcado de Moscou; aos ex-ucranianos cismáticos; a todos os ortodoxos: já que o Patriarcado Ecumênico não interrompeu a comunhão eucarística com ninguém.

Evidentemente, das margens do rio Moscou as interpretações do que está acontecendo hoje serão bem distantes das nossas, que bem remotas parecem aos centros de poder do Oriente e do Norte, e que emergem das extremidades do «Sul ontológico» da Ortodoxia.

No entanto, tal como nos ensinaram os antigos hierarcas do Fanar, para além das pessoas estão as instituições; e ainda mais além destes está o fundamento da Igreja, que é Cristo Jesus, diante de Quem, exclusivamente, nos prostramos e suplicamos conceda-nos iluminação, sabedoria, prudência, sensatez, respeito e, acima de tudo, caridade a todos os envolvidos neste enredo, para que possam resolver, mais uma vez, «sem dor, sem vergonha e pacificamente»[4] todas as problemáticas dos homens em sua Igreja.

Não esquecendo jamais que «o que é impossível para os homens é possível para Deus» (Lc 18,27).


Notas:

[1] E da ROCOR.
[2] Constantinopla
[3] Alguns já o tratam como herético!
[4] Frase típica das ladainhas do rito antioqueno-bizantino presentes na anáfora de São Basílio e São João Crisóstomo.

 
 

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