A todo o pleroma da Igreja:

A Graça e a Paz de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e, de nossa parte, oração, bênção e perdão a todos vós!

Irmãos e Irmãs, filhos e filhas bem-amados no Senhor,

Oferecemos hinos de agradecimento ao Deus do Amor, quando uma vez mais, entramos na Santa e Grande Quaresma, a arena de luta ascética, do jejum e da temperança, da vigilância e da consciência espiritual, do cuidado de nossos sentidos e da oração, da humildade e do autoconhecimento. Estamos iniciando uma nova e abençoada peregrinação até a Santa Páscoa que “nos abre as portas do Paraíso”. Na Igreja e como Igreja, ao contemplar o Senhor Ressuscitado e Glorificado, nos dirigimos juntos, por graça, pelo caminho da deificação que conduz aos bens celestiais “que Deus preparou para aqueles que O ama” (1 Cor 2,9).

Na Igreja, onde se realiza “o mistério eterno” da economia divina, todas as coisas têm seu fundamento teológico inabalável e uma autêntica relação soteriológica. A encarnação de Deus e a deificação do homem são os pilares da fé ortodoxa. Nos movemos rumo ao nosso destino eterno, no amor de Cristo. Nosso Deus, que ‘está sempre a nosso favor’, não pode ser reduzido a um ‘poder superior’, fechado em sua transcendência e magnificência de sua onipotência. Pelo contrário, Ele é o Logos eterno de Deus que “assumiu nossa forma” para convidar a humanidade à comunhão de sua santidade e à verdadeira liberdade. O homem que desde o princípio “foi honrado com liberdade” é chamado livremente a aceitar esse dom divino. No mistério divino-humano da salvação, nossa participação também opera como testemunho vivido e prática de caridade: “o que tens que não tivesse recebido?” (1 Cor. 4,7), através do amor pelo ‘ irmão’.

A Santa e Grande Quaresma é, por excelência, o período para se experimentar a liberdade outorgada por Cristo. O jejum e a ascese não são compreendidos por uma disciplina imposta, senão por uma adesão voluntária da prática eclesiástica da obediência à Tradição que não é uma letra morta, mas uma presença viva e vivificante, uma expressão permanente da unidade, da santidade, da catolicidade e da apostolicidade da Igreja. A linguagem da teologia e da hinografia fala da ‘tristeza alegre’ e da ‘primavera do jejum’. Isto porque, o autêntico asceta é sempre alegre, entusiasmado e brilhante. Não conhece dualismo nem divisão. Não se fecha na vida ou no mundo. A ‘ascese depressiva’ que conduz a ‘uma aridez da natureza humana’ não tem a ver com o espírito da ortodoxia, porque a vida ascética e a espiritualidade se nutrem da alegria da ressurreição. Neste sentido, o jejum e a ascese propõe um modo de vida alternativo ante o falso paraíso prometido pelo hedonismo e pelo pessimismo niilista.

Outro elemento essencial da espiritualidade ascética ortodoxa é o seu caráter comunitário. O Deus de nossa fé é ‘um Deus comunal’, “um Deus de relações”. Se tem dito, com razão, que a Santíssima Trindade é ‘a negação da solidão’. A individualização da salvação e da piedade, a mudança do ascetismo em uma perspectiva individual, ignoram a estrutura trinitária do ato eclesiástico. Quando jejuamos por nós mesmos e de acordo com nossa própria medida, o jejum não manifesta o espírito da Tradição Ortodoxa. A espiritualidade é uma presença vivificante do Espírito Santo que é sempre um “espírito de comunhão”. A verdadeira vida espiritual ortodoxa sempre se refere a dimensão eclesial de nossa existência e não a uma “autorrealização espiritual”.

Em conformidade com o fato de que o ano atual foi dedicado pela Santa e Grande Igreja de Cristo à “renovação pastoral e aos devidos cuidados com a juventude”, conclamamos os jovens ortodoxos a participarem da luta espiritual da Grande Quaresma, a viver sua profundidade humana e seu espírito libertador. Entender que o ascetismo ortodoxo é um caminho de liberdade, de melhoria existencial no contexto da abençoada vida eclesiástica, cujo núcleo é “viver a verdade na caridade”. A juventude ortodoxa é chamada a descobrir o caráter holístico do jejum, que é referido no Triodion como “o princípio das lutas espirituais”, como “alimento da alma”, como “mãe de todo bem e de todas as virtudes”. Não é simplesmente a abstinência de alimentos, mas luta contra aquele amor excessivo a si mesmo e a autossatisfação, mas uma sensibilidade para com o próximo que sofre e uma resposta tangível de ajuda para com eles. É um uso eucarístico da Criação, da plenitude existencial, da comunhão de vida e da solidariedade. Ascetismo, jejum, oração, humildade emanam o perfume e a luz da Ressurreição da qual extraem significado e propósito. Como a quintessência da vida eclesiástica e sua orientação escatológica, inseparavelmente liga a vida do ascetismo à Divina Eucaristia, o mistério de provar a alegria inexprimível do Reino do Pai e do Filho e do Espírito Santo. O fato de que na Igreja Ortodoxa a Divina Eucaristia foi preservada como o centro de sua vida, está ligada ao fato de que a Ressurreição é o fundamento de sua fé e o horizonte reluzente da espiritualidade ascética e do bom testemunho no mundo.

Com estes pensamentos, invocamos humildemente sobre todos vós a misericórdia e a bênção do Deus Amor, para que possamos seguir a tempo da Santa e Grande Quaresma com o coração devoto, alcançar a Paixão salvadora do Cristo Nosso Deus e glorificar a sua inefável paciência, resplandecer intensamente para a Festa de sua esplendorosa Ressurreição que nos leva da morte para a vida eterna..

Santa e Grande Quaresma de 2020

Bartolomeu de Constantinopla
Diante de Deus, fervoroso suplicante por todos vós.


[Tradução de Pe. Pavlos, Hieromonge]

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