Suzanna Stappas, uma das missionárias da OCMC que visitou o Brasil em Outubro de 2004

Suzanna Stappas, uma das missionárias da OCMC que visitou o Brasil em Outubro de 2004

Suzanna Stappas, uma das missionárias da OCMC que visitou o Brasil em Outubro de 2004 a convite do então bispo Dom Jeremias Ferens, escreve-nos sobre suas impressões nas 3 semanas que passou no Sul do Brasil 

Traduzido do inglês por: Natalia Waszczynskyi

No dia 12 de Outubro de 2004 começou minha jornada com saída da Flórida, onde o Centro Cristão Ortodoxo Missionário (OCMC) está localizado. Esta foi a minha primeira oportunidade de encontrar todos os funcionários na OCMC. Após assinarmos um termo de desistência de responsabilidades (tais como sequestro e prisão como reféns), uma bênção nos foi dada para que fizéssemos uma viagem segura.

Chegamos em São Paulo onde devíamos fazer uma conexão para Curitiba aonde encontraríamos o Bispo Jeremias. Em função das restrições feitas aos brasileiros que vão para os EUA após o dia 11/set, assim que chegamos, solicitaram a todos os americanos os passaportes, vistos, e nos colocaram em longas filas (cerca de uma hora a uma hora e meia) para tomar as impressões digitais antes de entrar no Brasil. Tivemos uma sensação estranha ao vermos placas dizendo “Apenas Americanos” e permanecermos separados.

Em Curitiba encontramos o Bispo Dom Jeremias e sua comunidade na Catedral Ortodoxa Ucraniana São Demétrio. A comunidade foi calorosa, generosa com sua hospitalidade, e disposta em partilhar histórias incluindo uma sobre o Bispo Dom Jeremias. Depois que ele estudou no seminário nos Estados Unidos, retornou à sua cidade natal e viu que sua Igreja havia desaparecido. A Igreja foi demolida e vendida como lenha porque ficou sem sacerdote por 17 anos e, assim, muitas pessoas mudaram-se para outros credos. Ele encontrou apenas uma mulher que perseverou na sua fé. Devagar, reuniu três famílias e, em 1989, foi ordenado sacerdote, passando a celebrar a Divina Liturgia em uma pequena casa de madeira. A comunidade cresceu a partir daquela casa. Como não houve o ingresso de novos imigrantes ucranianos, ele percebeu que o crescimento da Igreja teria que ocorrer através de conversões. Em 1993 tornou-se o primeiro Bispo Ucraniano no Brasil. Ele é o mais jovem e o primeiro Bispo nascido no Brasil e em toda a América do Sul.

Nosso itinerário foi mudado e revisto em Curitiba, principal base de nossa viagem missionária. Algumas das cidades e vilas que visitamos foram: Gonçalves Jr – (PR), São José – (SC), Florianópolis – (SC), Papanduva – (SC), Jangada do Sul – (SC), Ponta Grossa – (PR) e Apucarana – (PR). Mais uma vez, meu objetivo era o ensino através de projetos de arte, a todas as faixas etárias.

Em São José fomos abençoados por trabalhar com dois padres: Padre André e Padre Pavlos, ambos eram católicos no passado e agora são Ortodoxos recém convertidos. Eles estavam muito interessados em tornar esta comunidade mais viva e mais forte. Fomos trabalhar com nossos projetos artísticos para crianças (o que no fim abrangeu também os adultos). Primeiro olhei em volta e vi apenas um pequeno grupo. Continuei a organizar meus projetos e, para minha surpresa, a quantidade de crianças havia aumentado para, no mínimo, 45. Cada dia era esta a experiência que vivíamos. No final dos projetos, pediram-nos para explicá-los aos seus pais. Palavras não conseguem realmente expressar na sua plenitude nossas experiências com essas pessoas. Um dia antes de deixarmos São José, a comunidade cantou para nós a canção “A Viagem”:

“Eu vim de longe pra encontrar o meu caminho
tinha um sorriso e o sorriso ainda valia
achei difícil a viagem até aqui
mas eu cheguei, mas eu cheguei

Eu vim depressa, eu não vim de caminhão
eu vim à jato neste asfalto pelo chão
achei difícil a viagem até aqui
mas eu cheguei, mas eu cheguei

Eu vim por causa daquilo que não se vê
vim nu, descalço, sem dinheiro e na pior
achei difícil a viagem até aqui
mas eu cheguei, mas eu cheguei

Eu tive ajuda de quem você não acredita
tive a esperança de chegar aqui
vim caminhando. aqui estou, me decidi
eu vou ficar, eu vou ficar!”

Penso que eles entendiam muitos dos sofrimentos que nós como missionários, tivemos que suportar. Deixamos nossas famílias, um colega da equipe teve que voltar antes em função de um câncer, deparamo-nos com conflitos em nossa volta para casa, relativos à hostilidade espiritual, enfrentamos muitos desafios e muitas incógnitas… MAS NÓS CHEGAMOS. Da mesma forma que para as pessoas de São José, esta canção foi importante para suas circunstâncias e lutas. Muitos viveram na pobreza; alguns foram abandonados e maltratados. Muitos foram segregados, condenados, rejeitados pelos seus vizinhos, amigos e familiares porque eles quiseram fazer parte da Igreja Ortodoxa. Muitos deles vieram mesmo sabendo que mais tarde seriam castigados. MAS ELES VIERAM!

Em Florianópolis estivemos no Centro de Reabilitação de Dependência Química Bom Pastor. Conversamos com jovens rapazes em frente a um imenso ícone do Senhor Bom Pastor. Alguns colegas do meu grupo partilharam seu envolvimento com trabalho de reabilitação de drogas. Fui a última a falar e achei necessário partilhar com eles a importância de como eles se vêem a si próprios. Sugeri que eles olhassem para o ícone do Bom Pastor e entregassem suas cargas para Cristo carregar, olhando para fora de Seus olhos e vendo a si próprios como Ele o faz.

Em Ponta Grossa estivemos numa prisão (de segurança máxima). O Bispo aspergiu Água Benta e proferiu uma oração antes de seguir para a próxima cela. Nosso grupo seguiu, parando em cada cela para falar ou orar pelos detentos que estavam lá dentro – todos tentando nos observar atentamente através de uma janela não maior do que a página que você está lendo agora. Também visitamos suas áreas de trabalho e um membro de nosso grupo falou com eles. Eu saí com um sentimento triste de que muitas pessoas fora destas paredes também são prisioneiras – dentro de suas mentes e por não terem tido a experiência plena da liberdade que somente Jesus pode prover.

O que eu aprendi nesta viagem é o poder da esperança. Pensei em estar presente no Ofício da Ressurreição antes da badalada da meia noite – permanecendo no meio da escuridão e antevendo a Luz. DEpois de acesa e abençoada no Altar o sacerdote a traz para ser partilhada com os fiéis. Vagarosamente cada vela é acesa e ilumina a escuridão que uma vez nos circundava. A esperança, a glória, as promessas, as profecias, a realização é revelada.

Obrigado por suas orações, contribuições e por sua confiança em mim para servir nossas irmãs e irmãos Ortodoxos no Brasil.

Com muita saudade, em Cristo, a serva,
Suzanna Stappas

Acessar o Álbum de Fotos OCMC no Brasil

 
 

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