O Patriarcado Ecumênico responde aos ataques da Igreja Ortodoxa Russa

Por: Jivko Panev

O processo de preparação para a concessão de autocefalia à Igreja da Ucrânia já se encontra em um nível prático. Isso causou muitas manifestações negativas dos representantes da Igreja Ortodoxa Russa e da UOC-MP (Igreja Ortodoxa Ucraniana sob o Patriarcado de Moscou, na Ucrânia), que acusou o Patriarcado Ecumênico e S. S. o Patriarca Bartolomeu I de «heresia do papismo», e de interferência nos assuntos de outras Igrejas Locais, apontando para a iminência de um novo cisma no interior da Ortodoxia. Tais alegações hostis não poderiam ter sido deixadas sem uma resposta da Igreja-Mãe – o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla. Cerkvarium é grato ao Arcebispo Job de Telmessos (Gecha) por dar explicações detalhadas sobre as questões mais dolorosas que preocupam os cristãos ortodoxos.

CERKVARIUM: O Patriarcado de Moscou insiste que a autocefalia só pode ser solicitada pela parte canônica de uma Igreja, e tudo o mais é «a legalização do cisma». Mas todas as últimas autocefalias surgiram como resultado da separação exclusiva do Patriarcado de Constantinopla, e isso foi muito difícil e doloroso. Existem regras reconhecidas para quem pode pedir autocefalia, como e quando? Afinal, a maior experiência neste assunto – está com Constantinopla.

ARCEBISPO JOB: A História da Igreja Ortodoxa nos mostra, de acordo com textos e documentos, que em vez de uma falsa historiografia e de mitos criados, é evidente que absolutamente todas as concessões modernas de autocefalias foram proclamadas pelo Patriarcado Ecumênico. Mesmo se tomarmos a História da Igreja Ortodoxa na Rússia, vemos que sua autocefalia foi autoproclamada em 1448, quando Moscou elegeu o Metropolita Jonas de forma independente, sem o consentimento do Patriarcado Ecumênico. É interessante enfatizar que a Igreja Ortodoxa na Rússia nunca recebeu um tomo de autocefalia! Em 1589-1590, o Patriarca Ecumênico Jeremias II simplesmente regularizou a situação, elevando aquela Sé a um status patriarcal, permitindo que o bispo de Moscou «fosse chamado» patriarca, desde que comemorasse o Patriarca Ecumênico e o considerasse como «sua cabeça e protos», como indicado na carta.

CERKVARIUM: Autocefalias posteriores, séculos XIX e XX – todas foram proclamadas pelo Patriarcado Ecumênico: autocefalia das Igrejas Ortodoxas da Grécia (1850); Sérvia (1879, e elevada ao patriarcado em 1922); Romênia (1885 e elevado a patriarcado em 1925); Polônia (1924); Albânia (1937); Bulgária (1945, e elevado a patriarcado em 1961); Geórgia (1990); e Repúblicas Tcheco e Eslováquia (1998). Cada uma dessas proclamações estava relacionada a um fator político e a autocefalia era proclamada como uma forma de garantir a unidade da Igreja, no interior de cada um desses países, bem como a unidade entre as Igrejas Locais.

ARCEBISPO JOB: Na história da Igreja Ortodoxa, além do Patriarcado Ecumênico, nenhuma outra Igreja Local proclamou autocefalia. É verdade que a Igreja Ortodoxa na Rússia pode afirmar ter proclamado a autocefalia da Igreja Ortodoxa na Geórgia (1943), na Tchecoslováquia (1951) e na América (1970); mas tais autocefalias não foram reconhecidas pela plenitude da Igreja Ortodoxa em razão de a Igreja Ortodoxa na Rússia não ter essa prerrogativa de conceder autocefalia. Portanto, essas três Igrejas precisaram apelar ao Patriarcado Ecumênico que providenciou os respectivos tomos de autocefalia. Com o tempo, o Patriarcado Ecumênico regularizou a situação declarando a autocefalia da Igreja Ortodoxa na Geórgia (1990) e nas Terras Tcheca e Eslováquia (1998).

CERKVARIUM: É possível considerar que a atual difícil situação de divisão da Ortodoxia Ucraniana é resultado do fato de que a Igreja Ortodoxa Russa (ROC) tenha uma vez ignorado o apelo do Conselho dos Bispos da Igreja Ortodoxa Ucraniana (UOC-MP) de 1991 em relação à autocefalia?

ARCEBISPO JOB: Na minha opinião, sim! Se a autocefalia fosse proclamada na Ucrânia imediatamente após a proclamação de sua independência, em 1991, teria sido possível evitar 30 anos de um cisma doloroso e prejudicial, que começou em 1989. E essa era a posição de todo o episcopado da UOC-MP, que foi adotado imediatamente após a proclamação da independência da Ucrânia em seu Concílio em novembro de 1991: «O Concílio acredita que a concessão de autocefalia à Igreja Ortodoxa Ucraniana contribuirá para fortalecer a unidade da Ortodoxia na Ucrânia, a dissipação da cisão autocéfala surgida, a contenção da expansão Uniata Católica, a reconciliação e concórdia entre diferentes grupos atuais, a unificação dos cidadãos de todas as nacionalidades que vivem na Ucrânia e, assim, por conseguinte, para a consolidação do fortalecimento da unidade de todo o povo ucraniano. «As assinaturas de todos os bispos da UOC-MP daquela época subscrevem esta decisão, sem exceção, incluindo o bispo de Chernivtsi e Bukovyna, Onuphriy, atual Metropolita de Kiev e toda a Ucrânia. Aliás, eles esquecem frequentemente (ou deliberadamente encobrem) que o chamado «Concílio de Kharkiv», que elegeu o Metropolita Volodymyr (Sabodan), de santa memória, como Metropolita de Kiev sucedendo Philaret (Denisenko), repetiu esta posição, dirigindo-se ao Patriarca de Moscou, Alexis II, com as seguintes palavras: «Estamos confiantes de que a questão vitalmente importante de concessão de autocefalia à Igreja Ortodoxa Ucraniana canônica, com a ajuda de Deus e os esforços do novo Primaz, irá alcançar a unidade de todo o rebanho ucraniano com uma nova energia, uma nova força na brilhante esperança de que a Igreja Ortodoxa Ucraniana, num futuro próximo, receberá a autocefalia canônica desejada».

CERKVARIUM: A ROC (Igreja Ortodoxa Russa) acusa constantemente Constantinopla da «heresia do papismo». No entanto, no mesmo Patriarcado de Moscou, a doutrina da «Terceira Roma», segundo a qual o próprio ROC deveria ocupar o primeiro lugar nos dípticos, é muito popular. O que Constantinopla pode fazer sobre esses modos imperiais da Igreja Russa?

ARCEBISPO JOB: A teoria de Moscou como «Terceira Roma» não é uma doutrina eclesiológica, tampouco uma prerrogativa da lei canônica (eclesiástica). Aba (Starets) Philotheus de Pskov criou esse mito no início do século XVI. Mas a Igreja Ortodoxa não vive com base em mitos. A história da Igreja Ortodoxa não conhece uma «primeira» e «segunda» Roma, mas apenas a «velha» (Roma) e a «nova» (Constantinopla). Não há terceira Roma. A Igreja Ortodoxa vive, além das Sagradas Escrituras, com base na doutrina e nos cânones dos Concílios Ecumênicos. É clara e evidentemente indicado que somente estas duas sedes históricas receberam direitos e prerrogativas especiais na época dos Concílios Ecumênicos. E quem, entre os ortodoxos hoje, pode reivindicar ter autoridade suprema sobre os Concílios Ecumênicos para mudar suas decisões? De fato, todo bispo ortodoxo, em sua confissão de fé feita antes de sua consagração episcopal, promete sempre aderir não apenas à doutrina, mas também às regras eclesiásticas (cânones) dos Concílios Ecumênicos e Locais que o vinculam.

CERKVARIUM: O Metropolita Hilarion Alfeyev declarou em uma entrevista: «Ao contrário da Igreja Romana, na Igreja Ortodoxa sempre existiu um sistema diferente de Igrejas Ortodoxas Locais, cada uma das quais com independência, e nenhuma é subordinado a outra». Assim, o Patriarcado Ecumênico é posto no mesmo plano que os demais. Até que ponto esta compreensão do sistema de Igrejas Locais é correta? Quais os limites da intervenção do Patriarca Ecumênico nos assuntos (problemas) de outras Igrejas Locais?

ARCEBISPO JOB: Com relação à acusação de algumas pessoas de que Constantinopla caiu na «heresia do papismo», é preciso lembrar que nas Escrituras Sagradas, o apóstolo Paulo compara a Igreja de Cristo a um corpo do qual Cristo é cabeça e nós os membros (Ef 5,3, 30; Cl 1,18). Mas, para nós, ortodoxos a Igreja não é algo abstrato, como para os protestantes, mas é algo muito concreto – um organismo vivo, constituído de pessoas concretas. Portanto, de acordo com a lei da Igreja Ortodoxa, a cabeça da Igreja local é uma pessoa concreta – o bispo. E de acordo com a 34º cânon apostólico, os bispos de uma Igreja Regional devem reconhecer quem é seu primeiro (reconhecê-lo como cabeça, e não fazer nada importante sem o seu conhecimento.) Esta regra sempre foi aplicada à Igreja Universal, porque a nossa Igreja Ortodoxa é una, ou seja, é a «Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica», e não uma confederação de Igrejas independentes separadas, como vemos no Protestantismo. Na medida em que a Igreja está unida, um corpo – o corpo de Cristo – tem uma só cabeça. A Igreja não é um monstro de várias cabeças! Portanto, na carta que elevou o Trono de Moscou a Patriarcado, em 1590, foi declarado que o Bispo de Moscou deve reconhecer o Trono Apostólico constantinopolitano como «cabeça e protos», como fazem os outros Patriarcas Ortodoxos. Renunciar ou negar isso significa não apenas perder os privilégios concedidos à sede de Moscou por atos patriarcais de Constantinopla, mas também afastar-se da doutrina ortodoxa da Igreja, de acordo com as decisões dos Concílios Ecumênicos e das Sagradas Escrituras.

CERKVARIUM: Que privilégios ou funções especiais o Patriarca Ecumênico tem no âmbito da coordenação?

ARCEBISPO JOB: O Patriarca Ecumênico não é apenas um entre os patriarcas da Igreja Ortodoxa. Ele não é apenas o «primeiro dentre iguais». Aliás, a fórmula latina «primus inter pares» não é encontrada na lei da Igreja Ortodoxa que, ao contrário, se refere à «antiguidade de honra» (presbeia timês), indicando uma certa hierarquia ou pelo menos algum tipo de ordem. Tendo essa «antiguidade de honra», segundo os sagrados cânones, o Patriarca Ecumênico, como «cabeça» e »protos» na Igreja Ortodoxa, deve assegurar a unidade das Igrejas Locais e coordená-las. Isso ficou evidente no 20º século, na preparação do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa e na coordenação das Igrejas Locais no diálogo inter cristão em nível universal. Partindo do seu papel de assegurar a unidade das Igrejas Locais e de coordená-las, o Patriarcado Ecumênico proclama a autocefalia de novas Igrejas locais, como já foi dito. Além disso, de acordo com os cânones 9 e 17 do Quarto Concílio Ecumênico, o Patriarca Ecumênico tem o direito de aceitar apelos (ekkliton) de clérigos e bispos (incluindo aqueles de outras Igrejas Locais). Tem também o direito de estabelecer stavropigia (incluindo aqueles em território de outras Igrejas Locais).

CERKVARIUM: Como alguém pode acreditar no porta-voz da ROC que diz ter apoio maciço para sua posição na Ucrânia entre os primazes e episcopados de outras Igrejas Locais? Como as declarações dos chefes de outras igrejas gregas podem ser interpretadas em relação ao fato de que a Ucrânia é exclusivamente o território canônico do ROC? Existe um consenso pan-ortodoxo sobre isso?

ARCEBISPO JOB: Em sua pergunta é importante distinguir duas questões: a primeira é o reconhecimento da UOC-MP, sob o Metropolita Onuphriy, de Kiev e toda a Ucrânia; a segunda é a jurisdição sobre a Ucrânia. Em relação à primeira, está claro que entre as três jurisdições ortodoxas na Ucrânia no momento (a UOC-MP, a UOC-KP e a UAOC), a UOC-MP é a única Igreja reconhecida pela Ortodoxia Universal, pois faz parte do Patriarcado de Moscou, que recebeu seu status canônico do Trono Ecumênico, que está em comunhão com todas as Igrejas Ortodoxas locais. Os outros dois grupos, desde 1989, se separaram do Patriarcado de Moscou e, portanto, são considerados cismáticos e não são reconhecidos por nenhuma Igreja Ortodoxa local.

Quanto ao segundo ponto, deve-se enfatizar que a jurisdição eclesiástica sobre a Ucrânia pertence exclusivamente ao Patriarcado Ecumênico. Quando a Igreja Ortodoxa na Rússia recebeu o status de patriarcado em 1589-1590, a Metrópole de Kiev (no estado polonês-lituano, com sua sede em Kiev) permaneceu na jurisdição de Constantinopla. Após a margem esquerda da Ucrânia, (nome histórico da parte da Ucrânia, na margem esquerda (leste) do rio Dnieper) ser anexada ao estado de Moscou, após o Concílio Pereyaslav (1654), numa época em que havia constantes guerras entre os estados turco e moscovita (a partir de 1676) e quando o trono de Kiev permaneceu vago por muito tempo (a partir de 1681), o Patriarca de Moscou consagrou ilicitamente Gedeon Svyatopolk-Chetvertynsky, a pedido de Hetman Ivan Samoilovich (em 1685), então, no final, em 1686, o Patriarca de Moscou recebeu do Patriarca Ecumênico Dionísio IV a permissão exclusivamente para ordenar o Metropolita de Kiev, que deveria seguir comemorando o Patriarca Ecumênico e seria o seu Exarca. Ocorre que, devido às condições políticas, a Metrópole de Kiev ficou somente sob a administração da Igreja Ortodoxa na Rússia, não tendo havido qualquer transferência da Metrópole de Kiev para Moscou em 1686, conforme enfatizado pelo tomo de autocefalia da Igreja Ortodoxa na Polônia (1924). Este  afirma que tal autocefalia foi concedida «ouvindo a elevada voz do dever canônico, do cuidado das santas Igrejas Ortodoxas que se encontram em dificuldades e que está posto sob o nosso Santo Trono ecumênico»; vendo que a História também testemunha em favor do que acima foi dito (porque está escrito que a afastamento do nosso Trono da Metrópole de Kiev e suas Igrejas Ortodoxas dependentes de Lituânia e Polônia e, de igual maneira, a sua anexação à Santa Igreja de Moscou, desde o início, não foi de acordo com as prescrições legais e canônicas, e também por não cumprir o que foi declarado em conjunto no que diz respeito a completa autossuficiência eclesiástica do Metropolita de Kiev, cujo metropolita era exarca do Trono Ecumênico).

Portanto, quando a Ucrânia já não faz parte do Império Russo (e da União Soviética) e padece com divisões eclesiásticas internas que já duram quase 30 anos, resultando em milhões de pessoas fora do âmbito canônico da Igreja, situação que, até o momento, a Igreja Ortodoxa na Rússia (isto é, o Patriarcado de Moscou) não foi capaz de solucionar eficazmente, o Patriarcado Ecumênico sente-se chamado e obrigado a tomar as medidas apropriadas em base às suas prerrogativas, para garantir a restauração da unidade eclesial. Ao mesmo tempo, deve estar claro que não interfere assim nos assuntos de outra Igreja Local, mas que atua em seu território canônico – no território da Metrópole de Kiev.

CERKVARIUM: Em relação às constantes ameaças de rompimento da comunhão eucarística. O Patriarca Ecumênico está pronto para tal forma de protesto contra a autocefalia ucraniana do ROC? Será apoiado por outras igrejas locais? Imagine que a Ucrânia tenha autocefalia e o ROC não a reconheça. O que acontecerá depois? Como Kallistos Ware disse, não se pode «abusar da Eucaristia», isto é, chantagear com ameaça de suspensão da comunhão eucarística. Como a ruptura da comunhão eucarística pode afetar a consciência eclesiástica da Igreja Russa? É importante, neste caso, saber quem é o iniciador de tal separação?

ARCEBISPO JOB: Concordo com o Metropolita Kallistos de Diokleia em relação ao «abuso da Eucaristia». É necessário interromper a comunhão eucarística por causa de importantes razões dogmáticas, não por causa de caprichos. Muitas vezes, ouvimos de representantes da Igreja Ortodoxa na Rússia ameaças de que um cisma mais terrível acontecerá do que o de 1054. Qualquer um que conheça bem a História da Igreja sabe que o chamado «Grande Cisma de 1054», é também um grande mito. A anatematização do outro, por parte de Roma e Constantinopla, foi o resultado de uma tentativa fracassada de restaurar a comunhão eucarística entre as duas Igrejas que havia sido interrompida no início do século XI, devido à adição do «filioque» no Credo. Em razão dessa adição, Constantinopla suspeitava que Roma tivesse alterado a fé. A questão era dogmática. Portanto, o diálogo atual entre a Igreja Ortodoxa e a Igreja Católica Romana é de natureza teológica. Agora, no que diz respeito à questão do cisma e autocefalia na Ucrânia, todos sabem que o problema não é teológico, e não há necessidade de culpar alguém por heresia. Portanto, as ameaças de quebrar a comunhão eucarística, caso a Ucrânia receba a autocefalia, constituirá muito provavelmente um abuso da Eucaristia.

CERKVARIUM: Moscou ameaça que no caso de que seja concedido autocefalia à Ucrânia, um sangrento massacre acontecerá aqui? Constantinopla tem um plano para criar uma igreja ucraniana autocéfala pacificamente e sem guerra? Como se pode impedir a restrição dos direitos e liberdades religiosos daqueles que querem permanecer sob a autoridade de Moscou, e como se pode impedir a total repartição da propriedade da Igreja?

ARCEBISPO JOB: Como acaba de ser ressaltado pelo Metropolita Emanuel de França em uma entrevista, «O Patriarcado Ecumênico não ameaça e não está ameaçado. A Igreja Mãe mostrou que se preocupa com a reconciliação em disputas e a superação de cismas, e em nenhum caso quer novas». O Patriarcado Ecumênico não propõe autocefalia na Ucrânia como arma de guerra, mas como remédio para corrigir um cisma eclesiástico, que durou quase 30 anos. Como dissemos antes, a totalidade do episcopado da UOC-MP propôs este medicamento para o Patriarca de Moscou em 1991 e 1992. Como temos mostrado, durante o século XX, o Patriarca Ecumênico, com base em suas prerrogativas, sempre assegurou a unidade das Igrejas Ortodoxas locais e proclamou uma linha de novas Igrejas Autocéfalas como forma de assegurar a unidade da Igreja no seio de cada nova Igreja Local, bem como a unidade entre todas as Igrejas Locais. O papel do Patriarcado Ecumênico é servir a unidade da Igreja Ortodoxa.

CERKVARIUM: A Igreja Ortodoxa Russa insiste que a concessão de autocefalia à Ucrânia é um golpe para a unidade pan-ortodoxa. A recusa em participar do Concílio Pan-Ortodoxo não prejudica essa unidade?

ARCEBISPO JOB: Hoje, na Igreja Ortodoxa, fala-se frequentemente de conciliaridade, esquecendo que não há conciliaridade sem um primaz. Infelizmente, muitos ortodoxos, na luta contra o papismo, tomaram emprestados argumentos protestantes e rejeitaram completamente a primazia. Mas os sagrados cânones eclesiásticos afirmam claramente que não pode haver sínodo (ou concílio) sem os protos, nem os protos sem um sínodo. Isto é muito bem formulado no 34º Cânon Apostólico, que afirma que os bispos devem reconhecer aquele que é o primeiro (protos) entre eles e considerá-lo da cabeça (kephale); e não fazer nada importante sem o seu consentimento, mas o primeiro não pode, por sua vez, fazer nada sem o consentimento de todos. «Pois assim haverá concórdia (homonia), e Deus será glorificado pelo Senhor no Espírito Santo». Mas, na estrutura de conciliaridade, os cânones da Igreja enfatizam que o primeiro (protos) tem a responsabilidade de convocar o Sínodo (ou Concílio), e outros têm o dever de participar. Por exemplo, o 19º cânon do IV Concílio Ecumênico enfatiza que os bispos que ignoram a convocação de um sínodo sem razão devem ser corrigidos. Hoje, a recusa na Igreja Ortodoxa em reconhecer o Patriarcado Ecumênico como «primeiro» e como «cabeça» e afirmar que a Igreja Ortodoxa não é uma Igreja, mas sim uma certa confederação de Igrejas locais independentes (ou mesmo nacionais) é contrária ao espírito da eclesiologia e conciliaridade ortodoxas e, portanto, não ajuda a chegar a um acordo, resolver conflitos e curar cismas; pelo contrário, contribui para a fragmentação da Ortodoxia e o agravamento de conflitos e cismas.

CERKVARIUM: Obrigado, Excelência!


Fonte: Orthodoxie.com
Tradução de: Pe. André Sperandio

 
 

1 comentário

  1. ROMEU MUNIZ disse:

    Magnífica explicação do Exmo. Arcebispo JOB, não deixando dúvidas sobre a importante questão da Ucrânia. O Senhor conserve Sua Excia. por muitos anos !

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