O poeta e pensador russo Viacheslav Ivanov viveu em Roma no século XIX (1866-1949). As pinturas clássicas dos mestres italianos lhe eram bem familiares e frequentemente meditava sobre o seu significado espiritual. Assim, viu em três célebres obras destes mestres os símbolos do progresso espiritual na atitude cristã diante do mal: o Juízo Final, de Michelangelo na Capela Sistina; a Transfiguração de Rafael, nos Museus do Vaticano, e A Última Ceia de Leonardo da Vinci, em Milão.

O que Michelangelo pintou era, para Ivanov, a expressão característica de uma alma jovem e de sentimentos nobres. Ao encontrar-se com o mal, ressurge com entusiasmo e pensa destruir todos os malvados e mantê-los longe do espaço próprio da existência. Assim retrata o Cristo do Juízo Final da Capela Sistina: com gesto atlético afasta os pecadores e os envia para o fogo do inferno. Mas esse entusiasmo juvenil pela luta contra o mal vai se arrefecendo com a idade. A debilidade alcança o homem que vai se enfraquecendo enquanto o mal parece crescer.

Por Michelangelo – See below., Domínio público

Raphael pintou a Transfiguração de Cristo sobre o Monte Tabor em dois níveis: no plano inferior, os fariseus tentam condenar, causar a morte à  mulher culpada de adultério, certos de que assim estão a erradicar o pecado do mundo.

Por Rafael Sanzio - Downloaded from Artist Hideout, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=379381

Por Rafael Sanzio – Downloaded from Artist Hideout, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=379381

Os três apóstolos, porém, subiram a montanha e desfrutam da visão mística do mundo glorioso, celestial. Ou seja, crescendo, o homem se reconcilia com a existência do mal presente neste mundo e se consola com a esperança do mundo futuro. Esta parece ser a atitude dos verdadeiros crentes e, ainda assim, não é o mais elevado grau da perfeição.

Por Leonardo da Vinci - Unknown, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=24759

Por Leonardo da Vinci – Unknown, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=24759

Leonardo da Vinci apresenta a cena da Última Ceia, precisamente naquele momento em que Jesus anuncia que um dos seus, eleito como amigo, irá traí-lo. Os apóstolos saltam, querendo saber quem é para destruí-lo. Jesus, pelo contrário, inclina a cabeça, aceitando a vontade do Pai, sabendo que mesmo este ato traiçoeiro, pérfido, irá servir como um fio para as pérolas do colar das grandes obras do amor divino.


Extraído da obra «La Santísima Trinidad: nuestra vida, camino y destino», cardeal tcheco Tomáš Špidlík (Boskovice, 1919 – Roma, 2010).

 

ECCLESIA
Cultura e arte
Mística e Espiritualidade

 
 

0 comentários

Seja o primeiro a deixar um comentário.

Postar um comentário


 
 
 

Pesquisar

Arquivos