S. Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico.

BARTOLOMEU, PELA MISERICÓRDIA DE DEUS
ARCEBISPO DE CONSTANTINOPLA-NOVA ROMA
E PATRIARCA ECUMÊNICO

A TODA A PLENITUDE DA IGREJA,
A GRAÇA, A PAZ E A MISERICÓRDIA DE CRISTO
GLORIOSAMENTE RESSUSCITADO.

Queridos e veneráveis irmãos hierarcas e Filhos amados no Senhor,

A experiência da ressurreição de Cristo, da suprema vitória salvadora da vida sobre a morte, é o núcleo da fé, do culto divino, do ethos e da cultura do povo ortodoxo de Deus, portador do nome de Cristo.

A vida dos fiéis ortodoxos, em todas as suas manifestações e dimensões, é envolvida e nutrida pela fé na Ressurreição, e constitui uma páscoa cotidiana. Esta experiência pascal não é simplesmente uma lembrança da Ressurreição do Senhor, mas também uma participação em nossa própria renovação (modo de existência) e uma convicção inabalável sobre a perfeição escatológica de todas as coisas.

Em especial na Liturgia Eucarística, que está indissoluvelmente vinculada à “assembleia” e ao “dia escolhido e santo” do domingo, a Igreja Ortodoxa celebra esta participação existencial na Ressurreição de Cristo e a antecipação experiencial (degustação) das bênçãos do Reino de Deus.

É impressionante o caráter pascal e festivo da Divina Eucaristia, sempre celebrada em um clima de júbilo e alegria expressando a renovação final de todos os seres, a realização da alegria, a plenitude da vida e a superabundância futura do amor e do conhecimento.

Trata-se da visão redentora do presente à luz das Últimas Coisas e do caminho dinâmico em direção ao Reino. Trata-se da relação indissolúvel e do entrelaçamento entre a presença e a natureza escatológica de nossa salvação e a transfiguração do mundo em Cristo, que dá à vida eclesiástica um dinamismo único e serve aos fiéis como estímulo a um bom testemunho no mundo.

O fiel ortodoxo tem uma razão especial e uma forte motivação para lutar contra o mal social, pois vive intensamente a antítese entre as Coisas Últimas e cada evento histórico em particular. Do ponto de vista ortodoxo, o serviço filantrópico e a ajuda ao irmão privado do necessário, – de acordo com as palavras do Senhor: “sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25:40), e o amor tangível do Bom Samaritano (Lc 10: 30-37), assim como, de acordo com o Paterikon que diz “Tome por teu próximo todos os necessitados e, prontamente, vá em seu auxílio” (Isidoro de Pelusa) – constituem uma consequência e uma expressão do ethos eucarístico da Igreja, uma revelação de que o amor é a quintessência experiencial da vida em Cristo, tanto na vida presente como no Reino dos Céus.

É neste contexto também que devemos entender que a vida litúrgica na Igreja Ortodoxa é movida pela experiência da “Salvação comum”, do dom da “Liberdade comum” e do “Reino comum”, bem como da expectativa da “comum Ressurreição”. O que prevalece é o “nós”, a comunidade de vida, a co-participação e a co-existência, bem como a identidade santificante da liberdade em Cristo através do amor sacrificial e doxológico.

Tal é a mensagem inspiradora do esplendoroso ícone da Ressurreição na descida de Cristo aos Infernos. O Senhor da Glória, descendo às profundezas da terra, quebrando as portas do Hades, surge vitorioso e resplandecente da tumba, e não só ostentando a bandeira da vitória, mas ressurgindo com Adão e Eva, elevando-os consigo, segurando-os firmemente e apoiando-os e, neles, a humanidade inteira e toda a criação.

O Evangelho da Ressurreição, desta “festa de todos”, da abolição do poder da morte pelo Amor todo-poderoso, ressoa hoje em uma sociedade repleta de injustiça social, de redução da pessoa humana, num mundo que se assemelha a um Gólgota universal de refugiados com milhares de pequenos inocentes. Das profundezas, anuncia que, diante de Deus, a vida humana tem valor absoluto. Proclama que os sofrimentos e provações, a Cruz e o Gólgota, não têm a palavra final. É impossível que os crucificadores triunfem sobre suas trágicas vítimas. Na Igreja Ortodoxa, a Cruz está no centro da piedade; no entanto, não é a realidade última que determina o ponto final de orientação na vida da Igreja. O significado essencial da Cruz é que ela constitui caminho para a Ressurreição, para a plenitude de nossa fé. Sobre este fundamento é que os cristãos ortodoxos proclamam: “Eis que, pela cruz, a alegria chegou a todo o mundo”.

É característico que na Igreja Ortodoxa, o Serviço da Paixão não é angustiante; em vez disso, é uma mescla de Cruz e Ressurreição, uma vez que a Paixão é sempre abordada e experimentada através da Ressurreição, que é o nosso “lavacro da tristeza”. Para a sensibilidade ortodoxa, a conexão duradoura da Cruz e da Ressurreição é incompatível com todas as formas de fuga esotérica para qualquer falso misticismo ou autocomplacente pietismo que, em geral, tendem a ser indiferentes aos infortúnios e desventuras da humanidade na história.

A mensagem da Cruz e da Ressurreição encontra-se em nossa época, também face a face, tanto com a arrogante auto-exaltação do homem secularizado de hoje, racionalista, persuadido pelo poder excessivo da ciência, focado em si mesmo e apegado às coisas terrenas e efêmeras, o homem privado do desejo de eternidade, mas também com a repulsa a toda Divina Economia da Encarnação e ao “escândalo” da Cruz, em nome de uma absoluta transcendência de Deus e da distância intransponível entre o céu e a terra.

Em todas estas coisas, honorabilíssimos irmãos e amados filhos e filhas no Senhor, nós fiéis ortodoxos, cheios da experiência da luminosa Ressurreição, recebemos luz da Luz sem ocaso, e damos graças por todas as coisas, mantendo nossa mente nas coisas do Alto e já possuindo, desde agora, o penhor e a garantia do cumprimento escatológico da Economia Divina, enquanto proclamamos em assembleia: “Cristo Ressuscitou!”.

Portanto, suplicando para que o Senhor nosso, que sofreu foi sepultado e ressuscitou, ilumine nossas mentes e corações ao longo de toda a nossa vida, guiando nossos passos em direção a toda boa ação e fortalecendo seu povo no testemunho do Evangelho do Amor “até os confins da terra” (At 1: 8) para a glória de seu nome que é “acima de todos os nomes”.

No Fanar, Santa Páscoa 2018

† Bartolomeu de Constantinopla
Fervoroso suplicante de todos vós diante de Cristo ressuscitado.

Baixar arquivo em pdf aqui.


Tradução: Pe. André Sperandio
São José, SC (Brasil)

 
 

0 comentários

Seja o primeiro a deixar um comentário.

Postar um comentário


 
 
 

Assine nossa Newsletter

Pesquisar

Arquivos