Protocolo no 1123

BARTOLOMEU
Pela Misericórdia de Deus,
Arcebispo de Constantinopla-Nova Roma
e Patriarca Ecumênico.

À Plenitude da Igreja,
a Graça, a Misericórdia a e a Paz do Salvador Jesus Cristo, nascido em Belém.

Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico

Queridos Irmãos e Irmãs, Filhos amados no Senhor,

Pela graça de Deus, uma vez mais somos considerados dignos de alcançar a grande festa do nascimento do Verbo divino na carne, que veio ao mundo para nos conceder “bem-estar”[i],  remissão do pecado, (libertação da condição) de cativo das obras da lei e da morte, a fim de nos conceder a vida verdadeira e a grande alegria, que “ninguém nos pode tirar”[ii].

Damos boas-vindas ao “Deus Todo-perfeito”[iii], que «trouxe o amor ao mundo»[iv],  que se torna “mais próximo a nós do que nós a nós mesmos”.[v] Através da kenosis, o Verbo divino condescende com os seres criados em um “condescendência inexplicável e incompreensível[vi].” Ele, “a quem nada pode conter”, está contido no ventre da Virgem; o Maior existe no menor. Este grande capítulo de nossa fé, de como o Deus transcendente “se tornou humano para a humanidade”,[vii] enquanto permanece um mistério “inexprimível”. “O grande mistério da Encarnação divina permanece sendo um mistério”[viii].

Este estranho e paradoxal evento “oculto por séculos e gerações[ix],” é  o fundamento do dom da deificação humana. “Não há salvação em nenhum outro; pois não há outro nome humano abaixo do céu pelo qual devamos ser salvos”[x].

Esta é a verdade suprema sobre a salvação: que pertencemos a Cristo; que, em Cristo, tudo está unido; que a nossa natureza corruptível é reconfigurada em Cristo, a imagem é restaurada e o caminho para a semelhança é aberto para todas as pessoas. Ao assumir a natureza humana, o Verbo divino estabelece a unidade da humanidade através de uma predestinação e salvação divina comum. E não é só a humanidade que é salva, mas toda a criação. Assim como a queda de Adão e Eva impactou toda a criação, também a Encarnação do Filho e Verbo de Deus afeta toda a criação. “A criação se reconhece como livre quando aqueles que uma vez estiveram nas trevas se convertem em filhos da luz”[xi]. Basílio, o Grande, nos convida a celebrar a santa Natividade de Cristo como a “festa comum de toda a criação”, como “a salvação do mundo”, o dia do nascimento da humanidade”.[xii]

Mais uma vez, infelizmente, a expressão “Cristo nasce!” se faz escutar em um mundo cheio de violência, conflitos perigosos, desigualdade social e desprezo aos direitos humanos fundamentais. 2018 marca os setenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que, depois da terrível experiência e destruição da II Guerra Mundial, manifestou os ideais comuns e nobres que todos os povos e países devem respeitar incondicionalmente. No entanto, o desconhecimento desta Declaração segue, enquanto abusos e interpretações erradas intencionais de direitos humanos minam o seu respeito e realização. Continuamos ou não,  quer para  aprender com a história, ou para não querer aprender. Nem a experiência trágica da violência e a redução da pessoa humana, nem a proclamação de ideais nobres têm impedido a continuação da agressão e da guerra, a exaltação do poder e a exploração de uns pelos outros. Nem mesmo o domínio da tecnologia, as realizações extraordinárias da ciência e o progresso econômico trouxeram a justiça social e a paz que tanto desejamos. Ao contrário, em nosso tempo, a indulgência dos ricos aumentou, e a globalização está destruindo as condições de coesão social e harmonia.

A Igreja não pode ignorar estas ameaças contra a pessoa humana. “Não há nada tão sagrado quanto um ser humano, cuja natureza o próprio Deus compartilhou”[xiii]. Lutamos pela dignidade humana, pela proteção da liberdade humana e a justiça, tendo plena consciência de que “a verdadeira paz vem de Deus”[xiv], que o mistério transcendente da Encarnação do Verbo divino e o dom da deificação humana revelam a verdade sobre liberdade e o destino divino da humanidade.

Na Igreja, experimentamos a liberdade por meio de Cristo, em Cristo e com Cristo. E o ápice mesmo desta liberdade é o lugar do amor, que “não busca os seus”[xv], mas que “deriva de um coração puro”[xvi]. Quem depende de si mesmo, busca a sua própria vontade e é auto-suficiente – quem persegue a deificação por si mesmo, felicita-se a si mesmo, gira somente em torno de si mesmo, de sua auto-estima individual e auto-satisfação, tal pessoa só vê os outros como supressão da sua própria liberdade individual. Enquanto que a liberdade em Cristo está sempre orientada para o próximo, sempre dirigida ao outro, sempre diz a verdade com amor. O objetivo do crente não é afirmar e fazer valer os seus direitos, mas “seguir e cumprir os direitos de Cristo”[xvii] num espírito de humildade e gratidão.

Esta verdade sobre a vida em Cristo, sobre a liberdade como amor e o amor como liberdade, é a pedra angular e a garantia para o futuro da humanidade. Quando construímos inspirados por este espírito, somos capazes de enfrentar os grandes desafios do nosso mundo, que ameaçam não só o nosso bem-estar, mas a nossa própria sobrevivência.

A verdade sobre o “Deus-homem” é a resposta para o “homem-deus” contemporâneo e a prova de nosso destino eterno proclamado pelo Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa (Creta, 2016): “A Igreja Ortodoxa define contra o ‘homem-deus’ do mundo contemporâneo o ‘Deus-homem’, como a última medida de todas as coisas”. “Nós não falamos de um homem que foi endeusado, mas de um Deus que se tornou homem”. A Igreja revela a verdade salvadora do Deus-homem e seu corpo, a Igreja, como lugar e modo de vida em liberdade, “falando a verdade no amor”, e como a participação, mesmo agora na terra, na vida de Cristo ressuscitado”.

A Encarnação do Verbo divino é a afirmação e a convicção de que Cristo guia pessoalmente a História como uma viagem para o reino celestial. Evidentemente, a viagem da Igreja rumo ao reino, que não se realiza remotamente ou independentemente da realidade histórica, – ou suas contradições e aventuras – nunca foi sem dificuldades. No entanto, é em meio a essas dificuldades que a Igreja dá testemunho da verdade e realiza a sua a missão santificadora, pastoral e transformadora. “A verdade é a coluna e o fundamento da Igreja … A coluna do universo é a Igreja … e este é um grande mistério, um mistério da piedade”[xviii].

Irmãos e irmãs, filhos no Senhor,

Celebremos juntos, – com a graça do Verbo divino, que habita em nós, assim como, com deleite e alegria plena – , as festas dos Doze Dias de Natividade. Do Fanar rezamos para que nosso Senhor e Salvador, – que condescendeu em se encarnar por todas as pessoas – possa neste vindouro ano conceder a todos a saúde física e espiritual, juntamente com paz e amor mútuo. Que Ele proteja a sua santa Igreja e abençoe as obras de seu ministério para a glória de seu Santo e bendito Nome.

Natividade de 2017

BARTOLOMEU de Constantinopla,
Fervoroso suplicante diante de Deus por todos vós.

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Notas:

[i] Gregory o Teólogo, Oration XXXVIII, em Theophany, ou seja, a natividade do Salvador, iii, PG 36, 313.

[ii] João 10:18.

[iii] Doxastikon do Aposticha da Grande Vésperas de Natal.

[iv] Nicholas Cabasilas, A Vida em Cristo, vi, PG 150, 657.

[v] Ibid. VI PG 150, 660.

[vi] João de Damasco, Uma Exposição Exata da Fé Ortodoxa, iii, 1, PG 94, 984.

[vii] Máximo Confessor, Vários capítulos sobre Teologia e económica relativa virtude e vício, primeiro século, 12, PG 90, 1184.

[viii] Ibid.

[ix] Col. 1:26.

[x] At 4:12.

[xi] Iambic Katavasia na Festa de Theophany, ode VIII .

[xii] Basílio Magno, Homilia na Natividade de Cristo, PG 31, 1472-1473.

[xiii] Nicholas Cabasilas, A Vida em Cristo, vi, PG 150, 649.

[xiv] John Crisóstomo, em Co 1, Homilia I, 1, PG 61, 14.

[xv] 1 Co. 13: 5.

[xvi] um Tm. 1: 5.

[xvii] Theotokion, Aposticha do Ainoi, 12 de Outubro.

[xviii] John Crisóstomo, Em Timothy I, XI Homilia, PG 62, 554.


FONTE: da versão em inglês do Newsletter of the Ecumenical Patriarchate’s
e em espanhol publicada por  Sacra Metrópole de Espanha e Portugal
Tradução para o português por Pe. André Sperandio

 
 

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