Em discurso durante a Assembleia do Círculo Ártico, em Reykjavík, Islândia, o Patriarca Ecumênico Sua Santidade, Bartolomeu I, definiu o propósito do evento como “uma nova deliberação sobre o destino da Terra”.

A reportagem é publicada por World Council of Churches, 16-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A assembleia, que atraiu mais de 2.000 participantes de 50 países, reuniu líderes religiosos, cientistas, funcionários governamentais, ativistas e povos indígenas entre os dias 13 e 15 de outubro, na maior reunião internacional anual focada no futuro do Ártico.

Em seu discurso, o Patriarca Ecumênico lembrou um momento em que as pessoas religiosas eram relativamente indiferentes e, às vezes, até mesmo hostis à ciência. “Hoje, no entanto – afirmou –, já que algumas dessas conexões se tornaram mais perceptíveis e tangíveis, dificilmente há um líder religioso no mundo que, de uma forma ou de outra, não está preocupado com os desafios postos pela poluição e pelas mudanças climáticas.”

Cada vez mais pessoas reconhecem que a consciência religiosa e a ciência ambiental estão preocupadas com as questões últimas – com a forma como estamos moldando o destino da humanidade, do planeta e de toda a criação, refletiu Bartolomeu I.

“Por essa única razão, então, os líderes espirituais e os ecologistas não podem deixar de dialogar profundamente”, disse. “As mudanças climáticas são uma questão de subsistência, de alimentação e de sobrevivência individual e cultural.”

Para os esquimós, as mudanças climáticas não são apenas uma teoria, mas sim uma realidade dura e perigosa, disse Bartolomeu I. “Acima e além de tudo, é uma questão humana vital”, afirmou. “Para os cientistas, o Ártico é o barômetro da saúde ambiental do globo.”

As falhas ecológicas cometidas em outras regiões – incluindo a contaminação química e a radiação nuclear – são claramente evidentes no ambiente ártico, disse o Patriarca Ecumênico. “Quando visitamos essa parte intocada do planeta, não podemos esconder os nossos olhos, seja da beleza da criação de Deus, seja das mudanças que a loucura humana gerou”, disse. “Também não podemos evitar ponderar as terríveis consequências para o restante – e para o futuro – do mundo se as geleiras continuarem derretendo e se os níveis do mar continuarem subindo.”

A criação é uma intrincada rede de vida, concluiu. “Se o ambiente do Círculo Ártico está mudando agora em um ritmo assustador, é por causa das atividades econômicas e das opções de energia no mundo industrializado no Sul, no Ocidente e no Oriente”, disse ele.

Eis a íntegra da conferência de Sua Santidade Bartolomeu, Patriarca Ecumênico, na Assembleia do Círculo Ártico (Reykjavík, 13 de outubro de 2017, publicada por Conselho Mundial de Igrejas, 16-10-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis a conferência.

É uma honra falar à Assembleia do Círculo Ártico (Arctic Circle Assembly) a convite dos organizadores, especialmente do presidente fundador e ex-presidente da Islândia, Sua Excelência Ólafur Ragnar Grímsson. Além disso, é um privilégio estar na presença dos senhores neste importante centro de conferências para uma nova deliberação sobre o destino da Terra. De muitas formas, simbólicas e substanciais, essa região do planeta representa e reflete o núcleo da nossa abordagem ao aquecimento global. Não apenas porque o perigo de uma catástrofe ambiental evitável é hoje mais grave e mais real do que nunca, mas também porque estamos em uma região cuja beleza incrível, porém frágil, é ao mesmo tempo uma inspiração e um aviso a quem se preocupa com o futuro do nosso planeta.

Claro, vocês podem estar se perguntando por que um líder da Igreja está palestrando em uma organização secular. Há mais de duas décadas, começamos a promover simpósios sobre Religião, Ciência e Meio Ambiente, com uma ênfase especial nas águas da Terra. No início dessa tentativa, muitas pessoas ficavam intrigadas com as conexões que estávamos tentando estabelecer. Na verdade, os religiosos eram relativamente indiferentes e, às vezes, até hostis à ciência; e muitos cientistas e ecologistas viam pouca relação entre seus mundos e o mundo da fé e da espiritualidade. Hoje, no entanto, como algumas dessas conexões se tornaram mais perceptíveis e tangíveis, dificilmente há um líder religioso no mundo que não esteja, de uma forma ou outra, preocupado com os desafios colocados pela poluição e pelo aquecimento global. Neste momento, cada vez mais pessoas reconhecem que tanto a consciência religiosa como a ciência ambiental estão preocupadas com questões fundamentais – com a forma como estamos moldando o destino da humanidade, do planeta e de toda a criação.

Apenas por essa razão, líderes espirituais e ecologistas não podem se esquivar de entrar em um diálogo profundo. Além disso, nem os reverenciados cientistas nem os líderes religiosos entrariam em um diálogo desse tipo se considerássemos o futuro do planeta impossível ou irreversível. É justamente porque todos nós acreditamos na possibilidade de salvar a Terra e de restaurar a aliança entre os seres humanos e o Deus criador, em um espírito de humildade, arrependimento e gratidão. A discussão sobre o aquecimento global tende a se concentrar em questões políticas, econômicas e técnicas, em vez da influência e do impacto humanos. No entanto, o cuidado com a criação é uma questão profundamente religiosa, e até mesmo espiritual. Precisamos estar sempre conscientes dos dramáticos impactos sociais e culturais que as pessoas enfrentam devido ao aquecimento global, que é uma questão de subsistência, de alimento e de sobrevivência individual e cultural. Na verdade, para os esquimós do Ártico, a mudança climática não é apenas uma teoria; é uma realidade brutal e perigosa. É – acima e além de tudo – um problema humano vital. É importante para as pessoas e para todas as criaturas, o que significa que é importante para Deus, como seu Criador vivo.

Os cientistas nos dizem que o Ártico é uma imagem vibrante e um espelho vívido das condições do planeta como um todo. Para eles, trata-se do barômetro da saúde ambiental global. As transgressões ecológicas cometidas em outras regiões – como a contaminação química e a radiação nuclear – são claramente evidentes no meio ambiente do Ártico. Sobretudo, o drástico aumento das temperaturas da Terra tem um efeito palpável na paisagem do Ártico. No entanto, muitas sociedades industriais e atividades que causam aquecimento global frequentemente cegam-se para as consequências de seu comportamento. Mas aqui, no Círculo Ártico, é possível ver tudo com muito mais clareza. Ao visitarmos essa parte primitiva do planeta, não podemos esquivar o olhar da beleza da criação de Deus nem das mudanças geradas pela insensatez humana. Também não há como não ponderar sobre as terríveis consequências para os que ficarem – e para o futuro – do mundo, caso as geleiras continuem derretendo e os níveis do mar, aumentando.

É por isso que, durante o nosso Simpósio Ártico, quase dez anos atrás, ficamos em silêncio, orando, perante as geleiras derretidas e a sabedoria dos esquimós da vizinha Groenlândia. Depois, juntamente com todos os líderes religiosos que apresentamos, assinamos o Icefjord Commitment, “reconhecendo a interdependência de toda vida que, em suas muitas manifestações, sustenta esse planeta,e percebendo nossa dependência dessa infinidade de relações; comprometendo-nos aos mais simples atos de amor, compaixão e gratidão à vasta rede da vida e proclamando a tarefa da nossa geração de deixar esta terra sagrada, em toda a sua sabedoria e beleza, para as futuras gerações”.

Queridos amigos, a criação é uma intrincada rede de vida, e as ações dos seres humanos podem desenvolvê-la ou destruí-la. Portanto, o que acontece no extremo norte afetará o que acontece no extremo sul. Se o meio ambiente do Círculo Ártico está mudando a um ritmo assustador, é por causa de atividades econômicas e opções de energia no mundo industrializado, no sul, leste e oeste. Qualquer alteração no ambiente do Ártico tem o potencial de inundar ilhas nos trópicos, ou cidades tão distantes quanto Manila ou Miami, ao testemunharmos repetidamente as condições climáticas implacáveis do nosso mundo. De maneira simples, nenhum segmento da raça humana – nenhuma nação ou governo, nenhuma cultura ou comunidade – pode se isolar do destino da humanidade e da vida na Terra em geral.

É claro que, para mudar o que vemos, devemos mudar a forma como enxergamos. Temos de mudar a forma como percebemos e tratamos o mundo, como usamos nossos conhecimentos e habilidades para sustentá-lo e aprimorá-lo. Esta nova intimidade e a interligação persistente na rede da criação não precisam ser ruins, se aprendermos a discernir o que a Escritura cristã chama de “sinais dos tempos”. (Ma. 16:3) Até certo ponto, somos todos atraídos por uma experiência comum de medo e sofrimento, já que as consequências do aquecimento global são sentidas de diferentes maneiras. Em tempos em que as emergências climáticas de diversos tipos afetam a vida de centenas de milhões de pessoas, mais recentemente sob a forma de devastadores furacões nos Estados Unidos da América, não temos escolha moral senão “levar as cargas uns dos outros”, como requer o Novo Testamento (Gal. 6:2). No Ártico, as geleiras que estão derretendo ameaçam estilos de vida tradicionais; na verdade, a visão de mundo dos povos indígenas da região deve nos lembrar da responsabilidade e do respeito que devemos à criação e, por meio dela, ao nosso Criador.

Ao mesmo tempo, o Oceano Ártico não apenas se infiltra no Oceano Pacífico, mas impacta o resto do mundo pelo aquecimento global, o aumento do nível do mar e a mudança de padrões de vida. Já não nos surpreende que, no Sudeste da Europa, exista uma combinação alarmante de ondas de calor e inundações. Na África, a desertificação e a falta de água levam a problemas de saúde intermináveis. Na Ásia, há cada vez mais secas e incêndios. Na América do Sul, os incêndios e o desmatamento estão entre os muitos fatores que alteram o clima. E os cientistas nos informam que todos esses fenômenos estão inseparável e imediatamente interligados.

Se ao menos soubéssemos aprender as lições corretas, a rede de conexões causais entre eventos extremos em diferentes partes do mundo poderia ter um efeito moderado. Essas ligações devem trazer a todas as nações e comunidades sua estreita relação com todas as outras. Agora, deve ser mais óbvio do que nunca que nenhum estado nacional ou grupo étnico – e certamente nenhuma classe econômica – pode esperar avançar indefinidamente em seus próprios interesses à custa do restante da humanidade e dos recursos do planeta. Precisamos de uma liderança do governo; e dependemos da colaboração interdisciplinar.

Para reafirmar uma verdade simples, que guiou todas as nossas iniciativas ecológicas de proteção das águas da Terra: estamos no mesmo barco!

Como líderes e membros do Círculo Ártico, agradecemos sua sincera dedicação e grande responsabilidade. Essa responsabilidade é mais importante do que em qualquer outro momento histórico. Todos nós temos uma oportunidade única – pela primeira vez na história – de mudar e direcionar o curso do nosso futuro e do nosso planeta. Portanto, em nome do Patriarcado Ecumênico, a quem a história concede uma responsabilidade distinta pelo bem-estar de toda a Terra habitada, prometemos que estamos com vocês em consciência e convicção. Estamos com vocês em oração e persuasão. E estamos com vocês em parceria e solidariedade.

Que Deus abençoe a todos.


FONTE: IHU

 
 

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