Monge ortodoxo

Monge ortodoxo

Também chamada «trabalho espiritual» (em eslavo: doukhovnié diélanié), a Oração de Jesus encontra-se no coração da tradição ascética e mística do monaquismo contemplativo ortodoxo. Suas raízes remontam a mais alta antiguidade cristã, particularmente, a espiritualidade dos Padres do Deserto. É preciso, no entanto, ver nele mais que uma venerável relíquia de uma época arcaica, considerada mais em seu aspecto exótico pelos ocidentais. Método de oração simples e ágil, a Oração de Jesus conserva a sua atualidade. Pode ser adotada por homens e mulheres de hoje, adaptando-se à sua mentalidade e ao seu modo de vida. Irradiando para além do âmbito monástico, tem ajudado os leigos que vivem no mundo a unificar suas vidas segundo o espírito de Jesus Cristo.

Historicamente, a prática da Oração de Jesus nasceu do encontro de duas diferentes correntes espirituais: de um lado, o culto bíblico (mais especificamente, o semita) dos Nomes de Deus; e por outro, a prática da oração, chamada «jaculatória» nos meios monásticos do deserto. Prescindindo de crenças mais ou menos mágicas, na Bíblia, com efeito, a ideia do Nome divino corresponde a revelação, manifestação dinâmica da Pessoa do Deus transcendente.

Muitos são os textos do Antigo Testamento que poderiam ser citados a este respeito. Nos Salmos, particularmente, o Nome de Deus aparece como refúgio, potência auxiliadora. Há, porém, que evocar, sobretudo, as múltiplas referências ao Nome de Jesus no Novo Testamento onde se encontra uma grande diversidade de fórmulas, cujas tradições, em português, «Em o Nome de Jesus», e no latim, «In nomine…», são incapazes de expressar a rica complexidade e seu dinamismo. Três textos são capitais: Fp 2,9-10; At 4,12 e Jo 16,23-24. Quanto a oração jaculatória, Santo Agostinho, a quem devemos sua descrição, faz referência a ela desde o século IV entre os monges do deserto egípcio sob a forma de orações frequentes, porém muito breves e como que «lançadas rapidamente» (quodammodo jaculatas). A fórmula empregada para as invocações era o «Kyrie eleison» ou um versículo do saltério. Num dado momento, porém, o Nome de Jesus é associado à oração jaculatória. E esse encontro, essa fusão entre o Nome e a aspiração será obra de uma escola mística designada pelo nome genérico de hesicasmo. Trata-se de um movimento que se estende ao longo dos séculos (do V ao XIII, em certa medida, até os nossos dias), o hesicasmo experimentou uma evolução de tendências e expressões diversas. O que o mantém em sua continuidade é a busca de uma técnica contemplativa destinada a unificar e pacificar o homem interior, em Cristo, pela graça do Espírito Santo.

Após um certo eclipse, no século XII, a Oração de Jesus conhece, paradoxalmente, um renascimento no «século das Luzes» da Razão. Sinal e instrumento, ao mesmo tempo, desta renovação, a publicação, em 1873 de uma antologia de textos hesicastas com o título de Filocalia, (isto é, «Amor à Beleza»), abre um período de difusão da Oração de Jesus nos diferentes países ortodoxos e nos mais variados meios fora do seu ambiente monástico original. Traduzido para o russo com o título de «Dobrotoliubé», este libro influenciou de tal modo o povo russo, chegando mesmo a superar a Filocalia no ambiente grego. Na Dobrotolioubé, não apenas os monges, mas também as pessoas mais simples das aldeias, homens e mulheres de todos os meios, familiarizaram-se com os Padres, com o espírito e os métodos da oração contemplativa.

Depois da Revolução de 1017, a emigração russa, que se instala com muita dificuldade na Europa e na América, conhece uma discreta «primavera filocálica». Por sua mediação, a Oração de Jesus irá penetrar em certos meios cristãos ocidentais e, sobretudo, anglicanos. Praticada, ao mesmo tempo, pelo trabalhador no interior das fábricas ou nas profundezas das minas e pelo professor de teologia, despoja-se, neste novo contexto histórico, de conceptualizações herdadas do passado para encontrar de novo sua espontaneidade e sua simplicidade original. Assim se revela no que foi sempre sua essência: não uma crença na virtude mágica de uma fórmula, senão, atenção à presença de Deus, da que o Nome Divino é sacramento; não alienação em um mecanismo obsessivo, senão arte espiritual que guiando a inteligência do mundo dos fenômenos até às profundezas do coração, isto é, da pessoa, prepara este coração para receber o perdão, a paz, a iluminação; não a abolição do pensamento e da consciência pessoais, senão encontro comunicante, lúcido, com a pessoa humano-divina de Jesus (continue lendo…)

 
 

1 comentário

  1. URBANO MEDEIROS - Maestro disse:

    ARTIGO MARAVILHOSO. HÁ MUITOS ANOS EU PRATICO O HESICASMO. MESMO QUANDO ESTOU TOCANDO.
    ÓSCULO DA PAZ !

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