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Ele ganhou o título de «Patriarca Verde» por ser um líder religioso que se ocupa com as questões ambientais há pelo menos duas décadas. Em 2008, a revista Time elegeu o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, por «definir o cuidado do meio ambiente como uma questão de responsabilidade espiritual».

O papel do Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, como principal líder espiritual do mundo cristão ortodoxo, e como uma figura transnacional de importância global, adquire cada vez mais relevância. No início deste ano o Patriarca Bartolomeu fez enormes esforços para organizar o Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa em Creta, no início deste ano de 2016. Da mesma forma, segue trabalhando na promoção da liberdade religiosa, dos direitos humanos, entre tantas outras iniciativas de fomento à tolerância entre as religiões do mundo, além de seu esforço pela paz internacional e a proteção da Criação. Tudo isso o situa justamente entre os principais visionários, pacificadores e mediadores do mundo, como apóstolo do amor, da paz e da reconciliação.

25 anos como Arcebispo de Constantinopla e Patriarca Ecumênico

O Patriarca Ecumênico Bartolomeu, Arcebispo de Constantinopla, concedeu uma entrevista especial a um jornalista do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Parte da conversa aconteceu lá mesmo no Fanar – no Patriarcado Ecumênico – em Istambul, no início de dezembro, quando o Secretário Geral do CMI, Rev. Dr. Olav Fykse Tveit, se encontrou com o Patriarca Bartolomeu. A reunião coincidiu com a celebração dos 25 anos como Arcebispo de Constantinopla e Patriarca Ecumênico.

Encontramo-nos em seu escritório residencial, um lugar acolhedor, com cores vivas, cheia de livros e ícones. Ele nos recebe calorosamente, oferecendo café e pastéis, e logo nos faz sentir bem à vontade.

O Patriarca Ecumênico Bartolomeu I nasceu em 1940 como Demetrios Archondonis na ilha de Imvros (hoje, Gökceada, Turquia). Foi eleito em outubro de 1991 como o 270º Arcebispo da Igreja de Constantinopla, com uma tradição de 2.000 anos de fundação pelo Apóstolo Santo André, servindo como Arcebispo de Constantinopla-Nova Roma e Patriarca Ecumênico.

1. CMI – Vossa Santidade atua no Conselho Mundial de Igrejas há muitos anos, como membro da Comissão Fé e Constituição, mas também como um ex-aluno de Bossey. Quais são as suas principais impressões sobre o movimento ecumênico?

Temos participado efetivamente no Conselho Mundial de Igrejas desde o início de nosso ministério como membro de seus Comitês Central Executivo e de sua Comissão de Fé e Constituição durante cerca de quinze anos dentre os quais, como vice moderador durante oito anos (1975-1983). De fato, fomos vice moderador desta Comissão durante a elaboração do Documento sobre o Batismo, Eucaristia e Ministério, sobre o qual a influência ortodoxa foi bastante expressiva. Participamos também – como representante ou chefe da delegação do Patriarcado Ecumênico – em três Assembleias Gerais do CMI: em Uppsala (1968); Vancouver (1983); e Canberra (1991).

Nossos estudos de pós-graduação já nos haviam posto em contato próximo com a Igreja Católica em Roma e em Munique, e também com as igrejas Protestantes e, de forma mais geral, com o movimento ecumênico em Bossey, com eminentes teólogos como o falecido Nikos Nissiotis. Se dúvida, devemos esta formação ao nosso venerado predecessor, o Patriarca Ecumênico Atenágoras, que abriu os corações e as mentes dos jovens seminaristas e clérigos do Fanar às relações e ao diálogo entre cristãos.

Transformar as trevas em luz

2. Nosso mundo está mudando rapidamente. Vivemos tempos difíceis, mas o crente sabe que o Senhor está presente e ativo no mundo. Qual é hoje o maior desafio para a vida de fé e a proclamação do Evangelho em nosso tempo?

Estes são certamente tempos difíceis, até mesmo obscuros, em que discernir a presença de Deus em meio às turbulências de nosso mundo é uma tarefa complexa. Por todos os lugares vemos mais e mais dor e sofrimento, frequentemente, incertezas e hostilidades. Um cristão vê-se tentado a julgar e condenar o mal evidente de nossa sociedade e de nosso mundo. Mas isso seria uma reação muito simplista e pouco produtiva. O desafio para nós cristãos é manter o olhar fixo em Cristo para transformar a escuridão em luz, o desânimo em esperança e o sofrimento em reconciliação.

Recordamos uma homilia do falecido Metropolita Melitão de Calcedônia, no dia de nossa ordenação ao Diaconato, cinquenta e cinco anos atrás: «Não afasteis vosso olhar do Senhor transfigurado», disse ele; «Levai sempre esta luz que nunca se apaga para todas as pessoas». Essa é hoje a nossa missão ao proclamar o Evangelho. Estamos tão distraídos pelos problemas e a confusão que nos cerca, que nos assustamos e perdemos nossa orientação espiritual? Somos capazes de discernir o rosto de Cristo em nossos irmãos e irmãs, vendo centenas de milhares de pessoas perseguidas e em busca de refúgio entre nós? Ou preferimos erigir muros de proteção, muros que deixam as pessoas do lado de fora, paredes que consideram os outros como uma ameaça?

Nós convidamos estranhos para comer em nossa mesa?

3. A crise dos migrantes parece preocupar a Europa e vai fazê-lo por muitos anos. No entanto, também tem dividido as igrejas, entre aqueles que se preocupam pelas ameaças à sua identidade e os que são mais acolhedores. Em uma era que enfatiza tanto a diversidade, como Vossa Santidade vê a agenda da unidade evoluindo? Que tipo de esperança se vê?

A compreensão teológica de Deus na Igreja Ortodoxa é uma imagem de encontro e comunhão, de Deus como hospitalidade e inclusão. É por isso que o ícone tradicional de Deus como Trindade é uma representação dos três estranhos – ou estrangeiros – sob a forma de anjos recebidos por Abraão sob o carvalho de Mamre, como descrito em Gênesis, capítulo 18. Ele não os considerou como perigo ou ameaça para seus caminhos e suas posses. Em vez disso, espontânea e abertamente ofereceu a eles sua amizade e compartilhou sua comida. Como resultado dessa hospitalidade desinteressada que Abraão obteve uma promessa que parecia impossível, ou seja, a multiplicação – literalmente, na esterilidade! – Desta semente de amor por gerações. É demasiado esperar que nossa disposição para o diálogo e cooperação com pessoas de convicções religiosas diferentes e diversas também possa resultar na coexistência, aparentemente impossível, de toda a humanidade num mundo em paz? Então, quantos estranhos convidaremos para entrar em nossa casa e sentar-se conosco em nossa mesa?

Em seu documento oficial sobre «A Missão da Igreja Ortodoxa no Mundo de Hoje», o Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa, realizado em Creta em junho de 2016, determinou que «a Igreja Ortodoxa considera seu dever fomentar tudo aquilo que realmente promova e sirva à causa da paz e prepare o caminho para a justiça, a fraternidade, a verdadeira liberdade e o amor mútuo entre todos os filhos do único Pai celestial, bem como entre todos os povos que compõem a única família humana. A Igreja Ortodoxa sofre com todas as pessoas que em várias partes do mundo são privadas dos benefícios da paz e da justiça».

Horizontes abertos para o mundo diverso

4. Sua Santidade acolheu em junho o Santo e Grande Concílio. Qual foi o resultado mais importante para a Igreja Ortodoxa e para o movimento ecumênico em geral?

Foi realmente uma grande bênção termos sidos considerados dignos desta convocação – com o consentimento de Suas Beatitudes os Primazes das Igrejas Ortodoxas Autocéfalas – o Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa realizado em Creta (Junho de 2016). Este grande acontecimento histórico demonstrou a identidade conciliar da Igreja Ortodoxa e seus enormes esforços por preservar esta identidade acima de todos os interesses nacionalistas.

Neste sentido, expressamos nossa profunda satisfação pela decisão do Santo e Grande Concílio em manter a abertura ecumênica e os diálogos bilaterais da Igreja Ortodoxa, pois qualquer passo em contrário implicaria recessão e introversão em nossos tempos já tão difíceis e perturbadores. Não é o diálogo que constitui uma ameaça à nossa identidade, mas sim a recusa ao diálogo e o auto-confinamento estéril. Precisamente por isso é que também temos e alentado e promovido sempre o diálogo inter-religioso com o judaísmo e o islamismo, o que pode aportar resultados tangíveis para a reconciliação global e a sagrada causa da paz.

A reunião sem precedentes de tantas igrejas em Creta «abriu o nosso horizonte para o mundo contemporâneo diverso e multifacetado… e enfatizou nossa responsabilidade em cada lugar e em cada tempo, sempre com a perspectiva da eternidade». (Da Mensagem final). Tal como declara a Encíclica Formal do Santo e Grande Concílio, a Igreja é «testemunha no diálogo».

Adquire um coração compassivo

5. S. Santidade acredita que o medo é o melhor mecanismo de dissuasão contra a contaminação do meio ambiente?

Não deveria ser o temor de um desastre iminente quanto à mudança climática a nos obrigar a mudar nosso modo de nos relacionarmos com o meio ambiente. Pelo contrário, isto deveria dar-se através do reconhecimento da harmonia cósmica e da beleza original que existe no mundo. Devemos aprender a tornar nossas comunidades mais sensíveis e a tornar nosso comportamento com relação à natureza mais respeitoso. Precisamos adquirir um coração compassivo – o que Santo Isaac da Síria, um místico do século VII, uma vez denominou «um coração que arde de amor por toda a Criação: pelos seres humanos, as aves e animais, por todas as criaturas de Deus». O Patriarca Bartolomeu organizou oito simpósios internacionais e inter-religiosos, além de numerosos seminários e cúpulas para tratar dos problemas ecológicos que afetam os rios e os mares do mundo. Suas iniciativas lhe valeram o título de «Patriarca Verde», além da concessão de vários e importantes prêmios sobre o meio ambiente. Agora, temos o Acordo de Paris e as igrejas estão firmemente decididas em trabalhar pela justiça climática.

6. Como V. Santidade vê o futuro dos esforços ecumênicos em matéria de meio ambiente? Como V. Santidade vê a possibilidade de o cristianismo ser uma voz em favor da transição que necessitamos para um futuro sustentável?

Estamos muito satisfeitos que o Acordo de Paris tem sido amplamente aceito. De fato, participamos nas etapas de preparação para a COP 21 atendendo ao amável convite do governo francês. A este respeito, acompanhamos o Presidente Hollande às Filipinas e participamos de uma cúpula interdisciplinar em Paris antes da Conferência das Partes em dezembro de 2015. A 22ª reunião da Conferência das Partes sobre as alterações climáticas em Marraquexe foi, por um lado, motivo de celebração, por outro, porém, uma dolorosa lembrança de que somente hoje 197 países ratificaram uma convenção que entrou em vigor após a Cúpula da Terra Rio de 1992. Vinte e dois anos, no entanto, é um tempo inaceitavelmente longo para se responder à crise ambiental, especialmente quando estamos conscientes de suas conexões íntimas e inseparáveis com a pobreza, a migração e o mal-estar em nível mundial. Que preço estamos dispostos a pagar? Ou, quantas vidas estamos dispostos a sacrificar por ganhos materiais ou financeiros? E a que custo renunciaríamos ou impediríamos a sobrevivência da criação de Deus? Depois de vinte e dois anos, finalmente, é chegado o tempo – e já devia ter chegado há muito tempo – de todos nós identificarmos os rostos humanos que padecem as consequências de nossos pecados ecológicos.

E, como temos dito repetidamente, «estamos todos no mesmo barco». A mudança climática não é um problema de uma nação ou outra, de uma raça ou de outra, ou de uma ou outra religião. Só podemos dar respostas às demandas e proporções das mudanças climáticas quando assumimos todos juntos as nossas responsabilidades como crentes e cidadãos.

A promoção da unidade cristã

7. Lemos o texto de uma «Carta Encíclica do Patriarca Ecumênico às Igrejas Ortodoxas Autocéfalas, em relação com o Conselho Mundial de Igrejas», de 1952. O que essa carta significa hoje para a Igreja Ortodoxa?

Esta Carta Encíclica às Igrejas Ortodoxas Autocéfalas, de 1952 – ou seja, nos estágios mais antigos e mais formativos da criação do Conselho Mundial de Igrejas, que também tinham o desejo de  encorajar as Igrejas Ortodoxas a participarem do CMI, numa época em que prevalecia a suspeita e a relutância, tal como sucedeu na 3ª Assembleia do CMI, em Nova Délhi (1961) – articula-se no mesmo espírito em que foram adotadas as recentes decisões do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa. A Igreja Ortodoxa não enfatiza um aspecto de sua fé à custa de outra religião; mas, busca preservar a sagrada – embora às vezes delicada – simetria entre a fé e a ordem, a doutrina e a disciplina, a fé e o agir. Por isso, em suas decisões sobre «as relações da Igreja Ortodoxa com o resto do mundo cristão», o Santo e Grande Concílio afirmou a sua convicção de que a Igreja Ortodoxa, em sua profunda autoconsciência eclesial, está firmemente convencida de que ela ocupa um lugar central na questão da promoção da unidade dos cristãos no mundo de hoje. Além disso, as Igrejas e os bispos reunidos em Creta, concordaram que este compromisso «brota de um sentido de responsabilidade e da convicção de que a compreensão e a cooperação mútuas são de importância fundamental se aspiramos a não impor jamais obstáculo no caminho do Evangelho de Cristo».

A contribuição da Igreja Ortodoxa à peregrinação de justiça e paz

8. Qual é o maior desafio para o Conselho Mundial de Igrejas na perspectiva de Vossa Santidade? Como o CMI pode continuar a ser relevante para as igrejas-membros e para o movimento ecumênico em geral? E o que podemos aprender com a vossa Igreja – como parte da peregrinação de Justiça e Paz?

O Conselho Mundial de Igrejas foi estabelecido sobre a base da proclamação da unidade das confissões cristãs em sua fé trinitária, professando, ao mesmo tempo, as diferenças de suas igrejas-membros. Portanto, para manter estes dois polos equilibrados, é importante reconhecer os princípios fundamentais da fé cristã e, ao mesmo tempo, respeitar os ensinamentos fundamentais e as tradições próprias de cada denominação. É sempre tentador – embora também perigoso – defender um aspecto de um desses polos e condenar aos defensores do outro de obstaculizar o processo de reconciliação.

No Santo e Grande Concílio, as Igrejas e os hierarcas debateram – às vezes apaixonadamente, embora sempre de maneira positiva – sobre o importante trabalho do Conselho Mundial de Igrejas e, especialmente, de sua Comissão de Fé e Constituição. O documento específico sobre «As relações da Igreja Ortodoxa com o resto do mundo cristão» sublinha o empenho da Igreja Ortodoxa na promoção da unidade dos cristãos, ao mesmo tempo em que «contribui com todos os meios à sua disposição para o avanço da coexistência pacífica a cooperação nos principais desafios sociopolíticos.

O movimento ecumênico não é um «consenso interconfessional», mas a adesão à nossa obrigação e mandato a alcançar unidade cristã sem nos afastarmos da verdadeira fé da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica». É por isso que o mesmo documento conciliar conclui: «Com efeito, a Igreja Ortodoxa considera importante que todos os cristãos, inspirados nos princípios fundamentais comuns do Evangelho, busquem oferecer com entusiasmo e solidariedade soluções aos espinhosos problemas da contemporaneidade» Esta seria a singular e inestimável contribuição da Igreja Ortodoxa para a Peregrinação de Justiça e Paz.

Respirar o Espírito de Deus

9. Vossa Santidade poderia descrever o movimento ecumênico em termos relevantes e atrativos para a geração jovem?

Sua pergunta aporta tanto a premissa como a promessa de nossa resposta. O movimento ecumênico não é lealdade ideológica ou engajamento social; não é persuasão política ou ativismo global. É um movimento; e como tal deve permanecer, como movimento. Isto é, deve sempre inspirar-se e ser alimentado pelo alento do Espírito de Deus que deve arder em nossos corações e em nossas vidas. É este Espírito que nos mantém unidos e dá sentido a todos os aspectos da vida eclesial. É por tanto, este mesmo Espírito o que explica nossa adesão aos princípios e tradições de nossa fé; e é o mesmo Espírito que ilumina a nossa capacidade de «discernir os sinais de nosso tempo», bem como a nossa responsabilidade de testemunhar o Evangelho de uma maneira profética.

Ironicamente, não gostaríamos de aconselhar ou admoestar a geração jovem. Em certos sentidos, eles é que têm mais a ensinar para a geração mais velha sobre a abertura e a amabilidade, sobre o perdão e a generosidade. Talvez devêssemos alentar aos jovens a permanecer fiel a si mesmos apesar das forças e dos esforços generalizados para discriminar e dividir.

O movimento ecumênico seguirá relevante em nosso mundo se voltarmos aos princípios fundamentais do Evangelho de amar o próximo, alimentar os famintos e acolher o estrangeiro.


Fonte: Conselho Mundial de Igrejas
Foto: Sean Hawkey
Tradução do espanhol por: Pe. André Sperandio

 

 
 

1 comentário

  1. URBANO MEDEIROS - Maestro disse:

    EU AMO ESTE PATRIARCA – HOMEM SANTO – COM TODAS AS FORÇAS DO MEU CORAÇÃO !!!!!!!
    URBANO MEDEIROS maestro em MG

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