Protocolo no 1297

BARTOLOMEU
Pela Misericórdia de Deus,
Arcebispo de Constantinopla, Nova-Roma
e Patriarca Ecumênico.

À Plenitude da Igreja, a Graça, a Misericórdia
e a Paz do Salvador Jesus Cristo, nascido em Belém.

«A encarnação de Cristo é a minha própria recriação»[1]

Queridos Irmãos e Irmãs, Flhos amados no Senhor,

Louvor e glória ao Deus Trindade, que nos achou dignos, uma vez mais neste ano, de chegarmos à grande festa do Nascimento, na carne, do Filho e Verbo de Deus Pai, na «pequena Belém».

A Santa Igreja celebra com júbilo, porque Cristo «assumiu a carne», por meio de sua encarnação[2] e a converteu em «um adorno para o mundo»[3]. Com efeito, toda a raça humana, e até mesmo, «toda a criação» se regozija por esta bênção divina. «Toda a criação se enche de alegria, porque hoje Cristo nasce de uma Virgem»[4].

Ao contrário do «motor imóvel» dos antigos gregos, o nosso Deus é comunhão de amor e se move amorosamente no tempo ao encontro da humanidade e do mundo. «Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós» (1 Jo 4,10).

O Verbo eterno do Pai que deu a vida à humanidade, agora nos concede «bem-estar» através de sua Encarnação. «Eis a razão desta festa; eis a razão de celebrarmos hoje: a descida de Deus a nós para que possamos ascender ou retornar a Deus… Para que, deixando de lado a velha criatura, possamos assumir a nova e, portanto, viver em Cristo; para que possamos estar com Cristo, crucificados com ele, sepultados com ele, e ressuscitados com ele»[5]. O  caminho da deificação pela graça está aberto a todos aqueles que vêm ao mundo. Todos somos «capazes de Deus». «Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus» (Gl 3,28).

Lamentavelmente, o Evangelho da Natividade é uma vez mais proclamado num mundo onde se escuta o ruído das armas, onde se promulga a violência gratuita contra indivíduos e povos, e onde predomina desigualdades e injustiça social. É insuportável presenciar a situação de inúmeras crianças, vítimas de conflitos militares, situações irregulares de múltiplas explorações, perseguições e discriminações, assim como a fome, a pobreza, a exclusão e o doloroso e forçado deslocamento.

Em abril passado tivemos a oportunidade, em Lesbos (Grécia), de testemunhar com nossos próprios olhos, juntamente com Sua Santidade, o Papa Francisco de Roma, e Sua Beatitude Arcebispo Ierônimos, de Atenas e Toda a Grécia, as circunstâncias trágicas dos refugiados e imigrantes, especialmente os graves problemas de crianças que sofrem, vítimas inocentes e indefesas da violência militar, da discriminação racial e religiosa, da injustiça,  tudo isso em processo de constante agravamento.

A festa do Verbo de Deus que se fez criança – o Jesus Infante, cujo aparecimento é perseguido pela autoridade mundana, de acordo com o Evangelista Mateus (2,13) – é uma lembrança e, ao mesmo tempo, um chamado à responsabilidade de cuidarmos das crianças, de protegermos essas vítimas vulneráveis e de respeitamos a santidade da infância.

Obviamente, as crianças e as pessoas sensíveis também estão ameaçadas nos países economicamente desenvolvidos e politicamente estáveis do mundo, seja pela imensa crise do matrimônio e da família, por diferentes intervenções, ou até mesmo pelo uso da força física ou espiritual. A alma de uma criança é influenciada  e contaminada pelo excessivo consumo dos meios eletrônicos, especialmente da televisão e internet, e pela transformação radical da comunicação. A economia desenfreada os transformam, desde a mais tenra idade, em consumidores, ao mesmo tempo em que a busca pelo prazer faz desaparecer precocemente a inocência.

À luz destas grandes e perigosas ameaças, o grande e Santo Concílio da Igreja Ortodoxa dirigiu-se às crianças e aos jovens «com particular amor e afeição» (Pr 8), incluindo em sua Encíclica o seguinte:

Em meio à uma mescla de definições mutuamente contraditórias acerca da infância, nossa santíssima Igreja nos recorda as palavras de nosso Senhor: «Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus» (Mt 18,3); e, «Qualquer um que não receber o Reino de Deus como criança, de modo algum entrará nele» (Lc 18,17); e, ainda, como disse nosso Salvador sobre aqueles que «impedem» que as crianças dele se aproximem, e sobre os que os «escandalizam» (Mt 18,6).

O mistério da Natividade cristaliza-se nas palavras do Kontakion festivo: «Tu nasceste para nós, ó Menino, Deus antes de todo tempo».  O Verbo divino como um menino e o menino como Deus se revela ao mundo com «o coração puro» e a simplicidade de uma criança. As crianças compreendem as verdades que as pessoas «sábias e prudentes» não podem se aproximar. Como Elýtis observa em seu poema: «Podes construir Jerusalém somente com crianças».

Queridos irmãos e irmãs no Senhor:

Fazemos um chamamento a todos vós para que sejam respeitadas a identidade e a santidade da infância. Face à crise global dos refugiados que afeta especialmente os direitos das crianças; à luz do flagelo da mortalidade infantil, da fome e da escravidão, do abuso e da violência psicológica, bem como, dos perigos de deformar as almas das crianças pela excessiva exposição e influência dos meios de comunicação eletrônicos contemporâneos e sua sujeição ao consumismo, instituimos o ano de 2017 como o ANO DE PROTEÇÃO À SANTIDADE DA INFÂNCIA, convidando a todos a reconhecer e respeitar os direitos e a integridade das crianças.

Como é enfatizado em outro documento significativo do Santo e Grande Concílio, a Igreja de Cristo não busca «julgar e condenar o mundo» com sua palavra (Jo 3,17; 12,47), mas oferece ao mundo a luz e guia do Evangelho da do Reino de Deus, ou seja, a esperança e a segurança de que o mal, não importa a sua forma, não terá a última palavra na história, e não se pode permitir, portanto, que dite seu próprio curso»[6].

Portanto, veneremos nosso Salvador com humildade e compunção, porque do alto nos visitou; louvemos com cânticos divinos a grandiosidade da santa encarnação; prostremo-nos ante a santíssima Theotokos, que sustenta o menino Jesus. E, do Fanar, dirigimos a todos os filhos e filhas da Igreja de Constantinopla, de perto e de longe, a saudação festiva: «Cristo nasceu, glorifiquemo-Lo! Cristo está na Terra, exaltemo-Lo!, juntamente com nossos anseios paternais e a oração patriarcal.

«Sê forte na graça de Cristo Jesus» (2 Tm 2,1). Lutemos todos juntos com fé e amor sincero, na boa luta de uma nova vida na Igreja, sujeitando-nos a tudo o que o Senhor nos ordenou. Porque ele está conosco «todos os dias de nossa vida, até o fim dos séculos» (Mt 28,20).

Santa Natividade de 2016.

BARTOLOMEU de Constantinopla,
Fervoroso suplicante diante de Deus por todos vós. 


FONTE: da versão em espanhol publicada por
Sacra Metrópole de Espanha e Portugal
Tradução de Pe. André Sperandio
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Notas:

[1]  Gregório, o Teólogo, Poemas Morais, 34.

[2] João Crisóstomo, Homilia antes do Exílio PG 52.429.

[3] Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.

[4] Matinas da Natividade.

[5] Gregório o Teólogo, Homilia 38 sobre a Epifania, isto é, a Natividade do Salvador.

[6] A Missão da Igreja Ortodoxa no Mundo Contemporâneo, Introdução.

 
 

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